Bahia pergunta o que há por trás dos saques

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Publicada em 18 de julho de 2001
O Estado de S. Paulo

EDUARDO NUNOMURA
Enviado especial
SALVADOR – Há uma pergunta no ar: o que está por trás do clima de
insegurança e da onda de saques e depredações? “Também me pergunto isso.
Será que a culpa é da polícia?”, responde com uma indagação a secretária de
Segurança Pública, delegada Kátia Alves. “Não podemos atribuir todas as
mazelas da sociedade aos policiais.” Kátia procura respostas para as cenas
que viu. A ela, impressiona ver pais levarem seus filhos para saquearem as
escolas que servem a eles próprios. Lojas que cobram juros altos também
foram depredadas e saqueadas. Dezesseis Cestas do Povo, que beneficiam a
população carente, igualmente invadidas. “São questões profundas.”
Com uma visão oposta, o governador César Borges (PFL) arrisca um palpite:
“Há uma minoria de policiais que saiu às ruas para aterrorizar a população.
Foram arrastões falsos nos shopping centers. Quem comandou os saques foram
os policiais militares. Nas lojas do Cesta do Povo, já sabiam como entrar,
tirar os alimentos e levar para os quartéis ou para as suas famílias.”
Segundo ele, os policiais não têm o direito de provocar a insegurança da
população. “Isso é uma ação criminosa.” Ele atribuiu a greve à Central Única
dos Trabalhadores (CUT), que estaria insuflando os policiais, e também a
partidos políticos, como o PT, PSB e PC do B.
Segundo ele, há um concurso público em andamento para a contratação de 3 mil
policiais, que pode ser acelerado e até ampliado. Tudo para acabar com a
politização da greve.
Carência – O escritor Romeu Temporal, de 48 anos, acredita que existe na
Bahia uma bomba-relógio que se chama exclusão social. Segundo ele, é difícil
compreender por que a população depreda parques públicos como o de Pituaçu,
onde destruiu esculturas do baiano Mario Cravo Júnior. “Salvador é uma
favela de 3 milhões de pessoas.”
Já o antropólogo Ordep José Trindade Serra, da Universidade Federal da
Bahia, lembra que a região metropolitana tem a maior taxa de desemprego do
País. Para ele, o comportamento dos policiais, com capuzes, armados e
aquartelados, contribuiu para gerar o sentimento de insegurança. “Se vejo a
força policial se rebelando, vejo também um espetáculo de impunidade.”
Borges discorda da tese sobre desigualdade social. “A população baiana, por
índole, é pacífica. Não tem nada a ver com a desigualdade social, que existe
no Brasil inteiro. Os policiais não têm direito de fazer greve.”
O presidente do grupo musical Olodum, João Jorge Santos Rodrigues, põe mais
lenha na fogueira. Diz que TVs, geladeiras, calçados, roupas de grife e
comida foram os alvos preferidos dos saqueadores. “É um sinal para o Brasil
inteiro. São produtos que uma boa parte da população está impedida de ter.”
Isso justifica o saque? “Vivemos uma rebelião social.”

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