Tráfico atinge 92 dos 95 bairros e 90% dos flagrantes são de pequeno porte

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Publicada em 4 de outubro de 2009
O Estado de S. Paulo

Eduardo Nunomura
Nove em cada dez traficantes em São Paulo são presos com menos de 1 quilo de maconha, 500 gramas de cocaína ou 50 gramas de crack. Uma única apreensão de crack no Jabaquara supera a soma das mais de 200 em Santa Cecília, onde fica a nova cracolândia. O Departamento de Narcóticos, órgão especializado da Polícia Civil, retirou só 4 quilos de maconha das ruas da capital durante seis meses*. E a maior apreensão da droga, de 8,5 toneladas, ocorreu por pura sorte. O caminhoneiro que transportava a mercadoria perdeu o freio e bateu em outros carros perto de Paraisópolis. A Polícia Militar, chamada para evitar um linchamento, trombou com a carga.

A realidade descrita acima emerge da análise de 9.252 ocorrências que resultaram na prisão de traficantes na capital paulista entre 2007 e o primeiro semestre deste ano. Levantamento do Grupo de Atuação Especial de Repressão e Prevenção aos Crimes Previstos na Lei Antitóxicos (Gaerpa), do Ministério Público Estadual, obtido com exclusividade pelo Estado, revela o mapa do tráfico paulistano. São Paulo vem perdendo a guerra contra as drogas. Os criminosos estão espalhados por quase todos seus 95 bairros. Só os ricos Alto de Pinheiros e Vila Mariana e o pobre e despovoado Engenheiro Marsilac ficaram de fora. Neles, as polícias não chegaram a prender nenhum criminoso, o que não significa que estejam livres do problema.
A soma das apreensões realizadas por todas as forças policiais de 2007 a junho equivale a 24,7 toneladas de maconha, 4,7 toneladas de cocaína e 282 quilos de crack. Quantidades que assustam, mas se sabe que são só a parte retida pelas forças policiais. Especialistas dizem que esse volume representa entre 5% e 10% do consumo.
O relatório do Gaerpa é feito com dados de inquéritos policiais que viram processos no Fórum da Barra Funda, no qual ao menos um adulto foi preso. É um banco de dados continuamente atualizado por júris. Não relaciona as ocorrências envolvendo apenas menores de 18 anos ou quando não houve a prisão em flagrante. Mas é amplo por incluir as Polícias Civil, Militar e Federal, guardas-civis, agentes de presídios e seguranças de trens e metrô. É um dos retratos possíveis para mapear o tráfico. A Secretaria de Segurança não comentou os dados.
EXÉRCITO DE TRAFICANTES
Ao se prender dezenas de milhares de traficantes, criam-se mais problemas do que soluções. Os presídios ficam lotados, pouca droga das ruas é retirada e, em alguns casos, a Justiça abarrotada de processos acaba aplicando a lei em favor dos criminosos. Como há um exército de pessoas dispostas a traficar, formando fileiras quase inesgotáveis, muitos recrutas são réus primários. Se forem condenados, cumprem pena de menos de 2 anos – na prática, reduzida a 10 meses de detenção, porque a lei diz assim. Isso quando não são inocentados.
Policiais civis, a partir de uma investigação da Seccional de Santo Amaro, prenderam um artesão por estar num terreno de Parelheiros, na zona sul, em que sabiam haver droga. Com o artesão, que morava num casebre vizinho, com a mulher e a filha pequena, foi apreendida 1,5 tonelada de maconha, a quarta maior quantidade desde 2007. Em abril, o juiz da 19ª Vara Criminal assinalou na sentença: “A vida humilde do réu é incompatível com a de um grande traficante.”
O promotor Marcelo Luiz Barone, secretário executivo do Gaerpa, tece diversas críticas à luta antidrogas. “A polícia não sabe onde atacar, atira para tudo quanto é lado e de vez em quando acerta”, diz, acrescentando que ela perde tempo prendendo pequenos traficantes e o órgão repressor, o Denarc, não funciona como deveria. “Vejo um futuro nebuloso, porque o aumento da criminalidade é decorrência da expansão do tráfico.”

Denúncia anônima é o que leva às apreensões
Os mapas de maconha, cocaína e crack revelam uma São Paulo manchada de cores escuras. Em bairros periféricos, como Cidade Ademar, Brasilândia, Campo Limpo, Capão Redondo, São Lucas e Itaquera, houve ocorrências de grande vulto das três drogas. Até em áreas centrais, como Pari, Bom Retiro, Barra Funda e República, houve apreensões volumosas.
As ocorrências mostram, de fato, que um grande número de prisões ocorre a partir de denúncias anônimas. Outras, contudo, são fruto do trabalho efetivo da polícia. Em outubro de 2007, policiais do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa investigavam uma chacina envolvendo estrangeiros. Com escutas telefônicas, descobriram que o peruano José Luis Alarcon Lucero era o chefe de uma quadrilha de sete compatriotas que traficavam muita droga. Foram apreendidas 2,6 toneladas de maconha e quase 19 quilos de cocaína.
Embora a maioria das prisões seja feita por policiais militares em abordagens nas ruas, o recolhimento efetivo das drogas ocorre em apreensões. Em novembro, escutas telefônicas levaram investigadores do Denarc a abordar uma caminhonete F-1000 numa movimentada avenida do Jabaquara. No veículo, havia 305 quilos de cocaína e quatro fuzis. Em abril, na segunda maior apreensão do entorpecente, policiais civis receberam uma denúncia anônima de que um ladrão de caixas eletrônicos estaria na Rua General Otelo Franco, em Lajeado, na ponta da zona leste. Encontraram, na verdade, três pessoas ligadas ao PCC. Foram presas com 200 quilos da pasta.
Ainda no balanço, 32 casos a cargo de agentes da Polícia Federal resultaram na apreensão de quase 1,2 tonelada de maconha, um terço da quantidade recolhida nos 814 casos envolvendo policiais do Denarc. Nos dados do Gaerpa, chama também atenção a baixa eficiência dos agentes penitenciários. Em 180 ocorrências, retiraram das mãos dos presos 16 quilos de maconha, 6 quilos de cocaína e cerca de 500 pedras de crack. Volume muito inferior ao total de seis flagrantes realizados pela Polícia Rodoviária Federal.
EPIDEMIA
Um noia, o viciado na droga derivada da cocaína, consome em média 30 pedras de crack por dia. Os 282 quilos retirados das ruas na capital seriam suficientes para o consumo de 102 viciados só por um ano. As operações policiais e ações de saúde no centro atacam o problema mais visível e deprimente, mas não onde o tráfico atua com mais força. Das 50 maiores apreensões de crack, 6 ocorreram na região central (2 delas na República e nenhuma em Santa Cecília) e resultaram na apreensão de 18 quilos da droga. Os outros 44 casos foram quase todos na periferia e retiraram das ruas 138 quilos.
Em janeiro de 2008, policiais militares foram informados de que numa casa da Rua Mercedes Nasser Sabbag, no Jardim São Luís, ocorria tráfico intenso. Flagraram uma pessoa tentando fugir com 19,9 quilos de crack – a maior apreensão da pedra desde 2007. Na sentença, a pena inicial de 7 anos foi rebaixada para 5 anos e 10 meses porque havia réu confesso e, por fim, a 1 ano, 11 meses e 101 dias porque o criminoso era primário. E o traficante apela em liberdade.
* entre setembro de 2007 e março de 2008

Veja mapa interativo das drogas
http://www.estadao.com.br/especiais/mapa-das-drogas-em-sao-paulo,73443.htm

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