Cidade começa a espantar o clima de baixo astral

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Publicada em 17 de julho de 2001
O Estado de S. Paulo

EDUARDO NUNOMURA
Enviado especial
SALVADOR – Amanheceu chovendo na capital baiana, o que não impediu que a
cidade desse um “xô” no clima pesado dos últimos dias. Muitas lojas voltaram
a abrir as portas, os moradores foram trabalhar e os turistas deixaram de
espiar o movimento (ou a falta dele) nas ruas pelas janelas de seus quartos.
Aos poucos, com a presença do Exército, Salvador volta ao ritmo normal.
Ainda sem o axé. “Bah, que droga”, repetia desde sexta-feira a universitária
gaúcha Neisa Ferrel, de 23 anos. Ela está em Salvador para a reunião da
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Sair às ruas? “Só
fui até a esquina e voltei. Nem de bando saía.” Ontem, ela aproveitou para
ir ao caixa eletrônico do Mercado Modelo, no centro.
Na fila, Neisa conheceu a conterrânea Débora Brentano, de 21 anos, que
também participa do encontro. “Além de estudar, já vim esperando aquele
clima de festa, música, sol, praia, mas…”, disse Débora. Novata na Bahia,
ela torce para que a violência não volte às ruas. Daí, vai ser só
Pelourinho, Igreja do Bonfim, praia e, claro, SBPC.
O trio recifense Carolina Leitão, de 24 anos, Michelle Matos, de 23, e
Ângela Leite, de 22, desde sexta-feira em Salvador, teve dificuldade extra
nos últimos dias: encontrar um restaurante com serviço de entrega. “O clima
estava ruim. Até os taxistas diziam para a gente não sair”, contou Carolina.
“Deu medo na estrada, no ônibus, na rua. E a família a toda hora ligava para
dar as últimas notícias daqui”, lembrou Michelle. Ontem, as três passearam
no Farol da Barra.
O supervisor Darwin Carvalho, de 23 anos, saiu cedo de casa com um pé atrás.
Mas as ruas estavam cheias e os ônibus, circulando. “Rapaz, pelo que vejo as
pessoas estão receosas, mas temos de trabalhar.” O camelô Floriano de Jesus
Filho, de 31 anos, brincava com a situação. “Já posso dizer que estive numa
guerra civil.” A presença do Exército permitiu que comerciantes abrissem as
lojas. Algumas escolas particulares funcionaram, mas com poucos alunos.
Havia filas nos bancos, que ficaram fechados.
Patrulheiros – Na Avenida Estados Unidos, no centro, uma cena inusitada. Um
carro da PM foi parado por soldados do Exército. A dúvida era simples: os
policiais teriam autorização para fazer a patrulha na região?
Em Lobato, bairro da periferia de Salvador, um carro blindado do Exército
virou atração. Não era para menos. Ele fazia parte de um comboio de veículos
pesados e quebrou numa avenida. Curiosos, os moradores correram para ver.
Não é sempre que se tem um tanque na rua.

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