Policiais de Alagoas param, mas adesão não é total

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Publicada em 19 de julho de 2001
O Estado de S. Paulo

EDUARDO NUNOMURA
Enviado especial
MACEIÓ – No mesmo dia em que os policiais militares e civis voltaram ao
trabalho na Bahia, começou a greve da Polícia Militar em Alagoas. O efeito
dominó deixou a população da capital sem patrulhamento durante todo o dia de
ontem. Pela manhã, boa parte dos oficiais decidiu aderir ao movimento
iniciado na véspera, quando cabos e soldados votaram pela paralisação e o
aquartelamento.
No início da tarde, o comando de greve liderou uma passeata pela cidade.
Muitos policiais estavam fardados. A marcha dos cabos e soldados era
acompanhada por um carro de som. Foi sugerido à população que não saísse de
casa e aos comerciantes, que fechassem as portas de seus estabelecimentos.
Apesar disso, o clima em Maceió era de tranqüilidade e as pessoas andavam
normalmente nas principais ruas, avenidas e praias.
O ponto final da passeata foi o Palácio do Governo, na Praça dos Martírios,
onde dezenas de crianças podiam ser vistas cheirando cola à luz do dia. O
governador Ronaldo Lessa (PSB) despachou ontem em Mata Grande, interior de
Alagoas. Os policiais querem um aumento de 100% no salário – um PM em início
de carreira ganha entre R$ 239,71 e R$ 509,64.
Revolta – Anteontem, o governo estadual propôs 20% de aumento salarial para
os cabos e soldados, 10% para os sargentos e subtenentes e 5% para os
oficiais. A diferenciação de reajustes acabou aumentando a revolta dos
policiais. A proposta inicial das lideranças era esperar até amanhã, quando
seria realizada a assembléia dos oficiais. A paralisação foi antecipada para
ontem.
Efeito da greve da PM na Bahia? “Não houve inspiração até porque o
aquartelamento já estava sendo estudado aqui antes de ocorrer por lá”,
afirmou o soldado Wagner Simas, presidente da Associação de Cabos e Soldados
de Alagoas. “A greve dos PMs de Salvador representa um quadro generalizado
em todo o Brasil. Só é possível fazer segurança pública digna com salários
dignos.”
A greve não foi anunciada oficialmente pelos PMs, mas eles admitem o
aquartelamento. Não há previsão de envio de tropas do Exército ao Estado.
Apóiam o movimento o major Paulo Nunes, deputado estadual pelo PT, e o major
George Sanguinetti, vereador do PSL e médico-legista. Até o vice-governador
Geraldo Sampaio (PDT) ofereceu solidariedade.
Os policiais civis também estão parados e as delegacias só atendem casos de
urgência. Para a categoria, a proposta do governo foi de 11% de aumento. Se
o reajuste pedido pelos policiais fosse concedido, haveria aumento de R$
1,4 milhão no orçamento de Alagoas.
A próxima assembléia dos policiais civis e militares está marcada para
amanhã. Segundo os líderes do movimeto, hoje, não há patrulhamento das ruas
nem mesmo policiamento de trânsito. Na capital, a segurança está sendo feita
por policiais municipais e as agências bancárias são guardadas por
vigilantes particulares.
Alagoas foi palco, há exatos quatro anos, de uma verdadeira guerra
envolvendo policiais civis, militares e tropas do Exército. Em 17 de julho
de 1997, foi realizado um levante dos policiais que acabou provocando o
licenciamento do governador Divaldo Suruagy e o seu posterior afastamento do
cargo. Oficiais prometem repetir, na sexta-feira, o levante de 10 mil homens.

Governador solicita a FHC envio imediato de tropas do Exército
MACEIÓ – O governador Ronaldo Lessa (PSB) solicitou ontem, em telefonema ao
presidente Fernando Henrique Cardoso, o envio de tropas do Exército a
Alagoas. “Na Bahia, demorou quatro dias para as tropas chegarem. É evidente
que não é bom ficar esses quatro dias esperando, caso não haja solução”,
afirmou o governador durante reunião do Conselho de Segurança Pública, no
Palácio do Governo.
A chegada da força-tarefa às ruas de Salvador só ocorreu depois da onda de
saques, que aterrorizaram a população. Segundo Lessa, o presidente pediu a
ele que ligasse para o general Alberto Cardoso. Ele foi aconselhado a
realizar antes uma negociação com os grevistas. “O general tentou fazer com
que adiássemos o pedido, mas já oficializei a solicitação.” Não há uma data
definida para a chegada do reforço militar, nem se ele será imediato.
Lessa disse estar aberto a novas negociações com os policiais em greve. Em
sua proposta inicial, rejeitada, o governo oferecia reajuste de 11% para os
civis e o seguinte escalonamento na PM: 5% para oficiais, 10% para sargentos
até aspirantes e 20% para cabos e soldados.
Segundo José Carlos Fernandes, presidente do Sindicato dos Policiais Civis
de Alagoas, a média salarial dos 1.300 policiais civis do Estado é R$
400,00. Na PM, o salário médio de um soldado gira em torno de R$ 450,00.
Além dos aumentos, os policiais reivindicam melhores condições de trabalho.
Eles alegam que estão perdendo a luta contra os bandidos, porque trabalham
sem coletes à prova de balas, com armas ultrapassadas e carros velhos.
Estudo – Na reunião do conselho, ontem à noite, o governador disse que
estava sendo rodada a folha de pagamentos do Estado para verificar a
possibilidade de aceitar a proposta feita pelos manifestantes. Segundo o
tenente-coronel Jean Paiva, eles querem 40% de reajuste, sendo 10% agora e
reajustes mensais de 3% a partir de janeiro. “Entendemos que com a crise de
energia do País as contas para este ano estão apertadas. Daí, a solução do
reajuste parcelado em 2002.” A viabilidade dessa proposta será analisada
hoje.
O governador garantiu que por enquanto a situação é calma no Estado, embora
apenas a tropa de choque e o policiamento dos presídios tenham sido
mantidos. Na Polícia Civil, apenas o Instituto Médico-Legal (IML) e a bomba
de gasolina estão funcionando. “Mas se o governo radicalizar, até o IML será
fechado”, afirmou Carlos Jorge, diretor do Sindicato dos Policiais Civis de
Alagoas. Segundo ele, nas delegacias, os policiais fazem apenas a segurança
interna, mas não registram ocorrências.
Alagoas foi palco, há exatos quatro anos, de uma verdadeira guerra
envolvendo policiais civis, militares e tropas do Exército. Em 17 de julho
de 1997, foi realizado um levante dos policiais que acabou provocando o
licenciamento do governador Divaldo Suruagy e o seu posterior afastamento do
cargo. Oficiais prometem repetir, na sexta-feira, o levante de 10 mil
homens. (Colaborou Ricardo Rodrigues, especial para o Estado)

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