Salvando vidas na periferia

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Publicado em 27 de novembro de 2006
O Estado de S. Paulo

Eduardo Nunomura
ENVIADO ESPECIAL
BELO HORIZONTE
Se a vida de Franzidinho fosse um filme, ela já teria acabado muitas cenas
atrás. Desfecho trágico, mas nada imprevisível: menino de rua viciado em
crack morre aos 15 anos, executado pelo tráfico. A diferença é que hoje ele
pode contar sua história. Até quando, os pais não arriscam dizer. Talvez um
ano, quem sabe mais outro e assim até o dia em que só terão de agradecer ao
exército de salvadores que fez o filho deles ficar vivo.
Franzidinho tem 1,30 metro e 32 quilos. É miúdo pela origem e também pelas
drogas que consumiu desde os 9 anos – e elas o consumiram. Seu relógio
biológico parece ter parado a partir dessa idade – não aparenta mais de 9
anos. Essa fragilidade, contudo, oculta um garoto que viveu num mundo de
adultos criminosos. Conheceu esses bandidos e os ajudou o quanto pôde, tudo
para ter acesso à droga. Até o dia em que eles decidiram matá-lo.
“Deus já tinha me dado muito livramento, se continuasse no crack não ia mais
viver”, diz. Numa madrugada de setembro, foi jurado de morte. Franzidinho e
outros colegas do vício foram acusados de ter roubado o brinquedo do filho
de um traficante, o mesmo que vendia a eles pedras de crack a R$ 10 cada
uma. Depois de apanhar com taco de beisebol e coronhadas na cabeça, foi
obrigado a pular de uma ponte no Córrego do Onça, em Belo Horizonte. Quase
ninguém sobreviveria nas águas traiçoeiras. Ele sim, porque sabia nadar. Com
a nova chance, passou a dar valor a quem se esforçou para mantê-lo vivo até
hoje.
Uma rede de profissionais ligados ao Judiciário, à Secretaria de Defesa
Social de Minas, além de pesquisadores universitários e representantes de
comunidades pobres tomou para si a missão de reduzir a criminalidade nos
bairros violentos de Belo Horizonte. Criaram a primeira política pública do
País cuja missão é manter vivos jovens vulneráveis como Franzidinho, explica
Ludmila Feres Farias, diretora do programa Fica Vivo. Nas favelas e bairros
pobres da periferia, o tempo entre a vida e a morte de jovens é muito curto.
O Fica Vivo luta para prolongar ao máximo esse intervalo.
Estatísticas comprovam que o projeto tem dado certo: só este ano, o número
de homicídios nas áreas atendidas pelo projeto caiu quase 40%. Na capital
inteira, a redução é de menos de 10%. Assim, pode-se dizer que, em dois
anos, o programa evitou a morte de 281 pessoas só em Belo Horizonte. Apoiado
há três anos pela secretaria, o Fica Vivo começou em poucas localidades.
Agora são mais de 20.
Movimentos sociais na periferia e em outras áreas pobres estão por toda
parte e atraem vasta clientela de jovens. Mas atuam à margem da violência,
até sob a autorização de traficantes. Oferecem oficinas de esportes e
cultura, ou de geração de renda, ensinando crianças a terem um ofício. O
Fica Vivo também oferece isso, mas só como chamariz para quem vive ameaçado
de morte. “Não queríamos mais um movimento para abraçar o morro”, diz o
idealizador do projeto, o sociólogo Cláudio Beato, do Centro de Estudos de
Criminalidade e Segurança Pública da Universidade Federal de Minas Gerais.
A inspiração foi o programa Cessar-Fogo, de Boston , nos Estados Unidos, que
enfrentou uma série de brigas de gangue relacionadas ao tráfico de drogas
nos anos 80. Lá, a idéia era relacionar cada morte a um custo, encontrando
formas de conter o uso de armas de fogo. Em Minas, foi preciso adicionar
ações sociais por meio de pessoas da comunidade e policiais com o apoio de
técnicos. No caso de Franzidinho, surgiram personagens fundamentais, o
policial militar Marilton e o psicólogo Fídias Gomes Siqueira, técnico de
projetos do Fica Vivo. Foram eles que atuaram para salvar o garoto da morte.
AS DROGAS
Filho de pai que se suicidou quando tinha 2 anos e de mãe que demorou muito
a superar a perda, Franzidinho sofria calado. Como fazer para socorrer a mãe
que precisava de dinheiro? Seu amigo do barraco vizinho não podia emprestar,
mas sabia onde arrumar uns trocados. Na rua. Da primeira vez, trouxe R$ 8
para a mãe comprar remédios para a bronquite asmática.
Franzidinho foi uma segunda vez, uma terceira e não parou mais. Pedia para
vigiar os carros, depois aprendeu a lavá-los, e então a fazer malabarismo
com bolas de tênis no semáforo, a só estender a mão e pedir, a ganhar
dinheiro sem precisar roubar. “A gente tem culpa nisso”, reconhece a mãe,
Elisabete Maria de Carvalho. “Ele aprontava nas ruas, mas o dinheiro era
importante. Me ajudava nas compras de material escolar dos irmãos, chinelos,
roupa, brinquedo e até comida.” A rua tornou-se o mundo de Franzidinho. Num
dia, voltou para casa e perguntou à mãe se cheirar tíner fritava os miolos.
Ele já fazia isso havia um tempo. Sua turma de semáforo o ensinou.
Borracha, como chamavam um técnico de eletrônica que comprava tíner para os
garotos, foi além: sugeriu cola de sapateiro, ofereceu um cigarro, depois
trouxe um naco de maconha. Foi por esse tempo que Franzidinho conheceu o PM
Marilton. “Ele ficava nas ruas cheirando a maior parte do tempo”, lembra o
cabo. Marilton tinha pena. “Levar para casa não podia, o que eu fazia era me
sentir impotente.”
Quando o Fica Vivo foi adotada pela secretaria, Franzidinho teve o primeiro
contato com as oficinas. De grafite e futebol. À primeira vista, chamam a
atenção. Júlio Cesar da Costa Silva, de 23 anos, explica por que são peças
importantes no programa. “Elas fazem atravessar esta guerra que enfrentamos.”
No caso de Silva, que vive no bairro do Ribeiro de Abreu,a guerra é a
disputa de gangues vizinhas, de jovens que se armam com pistolas 9
milímetros e 380 para matar uns aos outros. Muitas vezes por motivos
fúteis. Silva, por mais que estivesse armado, sentia-se mal porque a
comunidade passou a evitá-lo. Hoje, como multiplicador do programa,
ensinando outros jovens a jogar futebol, voltou a ser respeitado. “Ficar
vivo é poder ver as mães deixando filhos andarem com a gente.”
Franzidinho, contudo, não se deixou seduzir pelas oficinas. Preferiu ficar
com as drogas e a fugir cada vez mais de casa. “Não tinha noção do que fazer
com um filho drogado, nenhum pai sabe”, diz o padrasto, Misael Francisco
Amorim, de 45 anos, que adotou o garoto como se fosse seu filho. Foram
incontáveis noites sem dormir e de choro também para a mãe e os cinco irmãos.
No outro lado da cidade, na Praça 1º de Maio, um ponto de viciados à luz
do dia, Franzidinho teve seu primeiro contato com o crack, a droga
importada de São Paulo que virou epidemia em Minas. “O mundo da pedra é
‘cabuloso’”, diz, mesmo sabendo que, dos 20 adolescentes com quem consumia
crack, só 4 estão vivos. Ele passou a praticar furtos e roubos, até no clube
de futebol América, de onde levou 200 uniformes, 50 chuteiras e 50 meiões
para depois trocar por drogas. Carregava armas e entorpecentes para os
traficantes. Foi preso, levado para instituições.
Há um ano e meio, Marilton reencontrou Franzidinho abandonado na Favela
Vietnã. Nem os pais sabiam do paradeiro dele. O garoto tinha a pele preta
com o pó de asfalto, ossos escancarando a magreza, unhas e cabelos compridos
e fedidos.
O POLICIAMENTO
Já integrante do Grupo Especializado em Patrulhamento de Áreas de Risco, o
Gepar, o cabo Marilton perguntou se o garoto queria ajuda. Se antes nada
podia fazer, dessa vez sua missão era intervir. O Gepar tem três funções:
descobrir quem são os jovens envolvidos no crime, prender os líderes mais
violentos – sobretudo os homicidas –, e tenta atrair os demais para o Fica
Vivo.
Marilton procurou então o psicólogo Fídias para ajudá-lo a tirar Franzidinho
das ruas. Ambos foram até um juiz e o convenceram de que valia a pena
manter o garoto o solto. Se fosse internado, seria presa de infratores em
processo de treinamento para o crime.
A agilidade do Judiciário ocorre porque uma das partes do Fica Vivo é a
integração de vários poderes públicos, afirma a promotora Cássia Virgínia
Gontijo, coordenadora do Grupo de Intervenção Estratégica. Uma vez por mês,
juízes, promotores, policiais militares e civis e acadêmicos – um grupo de
quase 40 pessoas – , discutem como estão as ações do programa. Eles esmiuçam
a situação em cada bairro, esquadrinham quem são os chefes das gangues,
decifram quem são os sucessores no tráfico.
O grupo leva sugestões ao Executivo, que vão do aumento do policiamento à
simples derrubada do muro que serve de escudo a traficantes. Quando há
situações de emergência, como proteger um adolescente com risco de morte, as
decisões são tomadas rápido.
Em maio, Franzidinho foi numa clínica particular de desintoxicação, graças
ao Fica Vivo. A tentativa não durou mais que 48 horas. Voltou para a rua.
Semanas depois, o psicólogo Fídias apostou numa internação psiquiátrica. Sem
burocracia, o juizado aceitou a proposta. Ele ficou três dias dopado. Quando
acordou, fugiu. Franzidinho havia se tornado um ponto de interrogação para o
programa.
“Será que tudo tem de dar certo?”, questiona o psicólogo. “Temos como
impedir que os jovens não prefiram a morte? Por mais que mandemos prender ou
dar oficina, às vezes o caminho deles é outro.”
Em setembro, quando Fídias decidira se afastar um pouco da família, pois
ela havia criado dependência do programa, recebeu uma ligação de
Elisabete. Franzidinho estava em casa havia 15 dias. Tinha escapado da morte
no episódio da ponte. Queria outra chance no Fica Vivo. É o que tem agora.

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