ELEIÇÕES 2006 10 razões para a vitória de Lula e para a derrota de Alckmin

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Publicada em 30 de outubro de 2006
O Estado de S. Paulo

EDUARDO NUNOMURA
“Esta foi a eleição mais despolitizada de toda a democracia brasileira”,
resume o cientista político Gildo Marçal Brandão, da Universidade de São
Paulo. O maior beneficiado desse cenário foi o presidente reeleito, Luiz
Inácio Lula da Silva, que derrotou o tucano Geraldo Alckmin. Nesse cenário
de desmobilização, ganha quem desconstrói a imagem do adversário. “A rigor,
campanha é a utilização de mal-entendidos e formulação fantasiosas”, diz o
cientista político Luís Felipe Miguel, da Universidade de Brasília. Nisso, o
experiente Lula, em sua quinta eleição presidencial, foi mais eficiente que
o novato Alckmin. Quando parecia em dificuldades, tendo de disputar um
inesperado segundo turno, Lula ditou a agenda na reta final da campanha.
Para pesquisador da USP, presidente se beneficiou da campanha mais
despolitizada da história republicana

Geraldo Alckmin
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Entrou no jogo do adversário, obedecendo à agenda imposta por Lula no
segundo turno. A ponto de posar de boné e macacão com logomarcas de estatais
para rebater a denúncia de que iria privatizá-las
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Seu horário de TV repetiu a fórmula da campanha tucana de 2002. E Alckmin
não conseguiu penetração no Nordeste. A escolha de José Jorge (PFL-PE) para
vice não surtiu o efeito desejado
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Passou uma imagem de instável nos debates. “Foi do bonzinho ao agressivo, desorientando o eleitorado”, afirma o cientista político da Universidade de Brasília Luís Felipe Miguel
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Demorou a bater no tema da corrupção. Apesar da reticência do tucano, foi
também por um escândalo que foi para o segundo turno,
a compra do dossiê Vedoin – e a divulgação das fotos do dinheiro
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A oposição pagou pelo erro de não ter pedido o impeachment de Lula quando
o presidente estava mais fraco, no auge da crise do mensalão. O petista se
reergueu e deu o troco nas urnas
5
Nunca teve o apoio unânime do PSDB ou de seu principal aliado, o PFL. Foi
traído por líderes tucanos: a derrota de Alckmin abre espaço para as pretensões presidenciais de colegas de partido
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Ao buscar alianças para o segundo turno, Alckmin começou de forma desastrosa. O apoio do casal Garotinho no Rio, por exemplo, foi fatal para quem tinha centrado seu discurso na ética
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Sua chegada ao segundo turno representou uma vitória, mas depois perdeu os
preciosos primeiros dez dias sem fazer campanha. Esfriou os próprios
eleitores que havia conquistado
2
A falta de bandeiras capazes de empolgar o eleitor de baixa renda, em
contraposição ao Bolsa-Família. O discurso da administração equilibrada, do
controle de despesas, seduz mais a classe média
1 A dificuldade de se apresentar como opção a um governo que manteve a
economia estabilizada. O eleitor votou pensando no bolso e Alckmin não o
convenceu de que faria uma gestão melhor que a de Lula

Luiz Inácio Lula da Silva
1
A popularidade do Bolsa-Família, que beneficia 44 milhões de pessoas. O
programa passa por cima do clientelismo de políticos locais. Para o eleitor,
o Bolsa-Família tem o carimbo e a cara de Lula
2
“É muito difícil disputar a eleição não contra um candidato, mas contra um
mito”, definiu o tucano Aécio Neves. Os vários escândalos não foram
suficientes para apagar a história e o carisma de Lula
3
Era o candidato da reeleição, logo com a máquina administrativa a seu
favor. “Por ser governo, tinha a bolsa, a caneta e a exposição na mídia”,
afirma a cientista política Maria Victoria Benevides
4
Capacidade de dissociar sua imagem dos escândalos. Do caso Waldomiro Diniz
ao dossiê Vedoin, passando pelo mensalão, não hesitou em sacrificar ministros, assessores e colegas de PT
5
Manteve a política econômica do governo FHC e se aproveitou da onda positiva dos mercados mundiais. A inflação esteve sob controle, o que beneficiou sobretudo a população de baixa renda
6
Conseguiu mudar a agenda da campanha no segundo turno. Os tucanos ficaram
o tempo todo rebatendo denúncias de que planejavam privatizações ou cortes em programas sociais
7
Fez colar no tucano a imagem de político da direita, impedindo a migração
do eleitorado de esquerda, que, desencantado com o PT, votou em Heloísa
Helena e Cristovam Buarque no primeiro turno
8
O discurso da continuidade, que agrada tanto ao empresariado quanto ao eleitor comum. Teve ainda mais habilidade para fechar acordos com caciques regionais e contou com o apoio do PMDB
9
Sua campanha de TV foi mais eficaz e otimista, e mostrava que vinha “do povo”, segundo o publicitário Chico Malfitani. Mostrou projetos nacionais em oposição às propostas do “paulista” Alckmin
10 O cerco à Polícia Federal, que evitou, até o fim do segundo turno, o
esclarecimento da origem dos recursos usados por petistas e pessoas ligadas ao partido para a compra do dossiê Vedoin

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