Nordestinos desistem de São Paulo e batem em retirada à terra natal

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Publicado em 10 de fevereiro de 2008
O Estado de S. Paulo

Eduardo Nunomura
O pernambucano Gildo Ferreira da Silva Filho decidiu empacotar tudo e ir embora para Garanhuns, terra do presidente Lula. Foi de repente. A mulher Marinês e o filho Mateus, de 9 anos, ficaram contrariados, depois tristes e conformados por último. No sábado de carnaval, a família embarcou num ônibus clandestino rumo ao Nordeste. Talvez para nunca mais voltar.
Gildo tentou se firmar em São Paulo. Virou arrumador de carga numa transportadora. Ganhava pouco, mas pôde construir uma casa de três cômodos na periferia de Guarulhos. Sua felicidade foi ter juntado R$ 1 mil para comprar um teclado Yamaha para o filho. Mateus toca forró, brega, arrocha e o “rei da pisadinha”. Como um autêntico nordestino, porém nascido aqui. “Meu sonho era ficar. Ele é gênio da música, teria mais chances”, lamenta o pai, que havia três meses estava sem trabalho fixo. Na terra de Lula, tem um sítio de 3 alqueires. Um irmão, que voltou antes, já comprou mais terra, gado e moto.
São Paulo parou de importar nordestinos e está exportando-os de volta. Os dados indicam que, nos últimos dez anos, o saldo de retorno ficou em 181.694 migrantes. Na década anterior, o fluxo era invertido: 505.684 pessoas vieram para cá – o Estado paulista mais absorvia que devolvia essa população para a terra natal. Nos levantamentos da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (Pnad), que mede, entre outros, a migração, essa tendência é confirmada. De 2001 até 2004, os nordestinos mais chegaram do que voltaram. Para 2005 e 2006, a somatória já é de 209 mil. Mas no sentido que Luiz Gonzaga, o rei do baião, um dia previu: o sertanejo está voltando, viu?
O demógrafo Kléber Oliveira, professor da Universidade Federal de Sergipe, levantou os números a pedido do Estado. Especialista em migrações dos nordestinos, ele reconheceu que os dados revelam uma nova tendência. “É bastante interessante, uma vez que no Nordeste temos os mesmos problemas estruturais que motivaram os fluxos migratórios históricos. Os fatores de expulsão permanecem inalterados. Veja a seca e a incapacidade dos governantes em adotarem estratégias de melhor convívio com o fenômeno.”
CHINELA HAVAIANA
Givanildo Pereira da Silva, de 27, migrou de Jupi (PE) em 1999. Dois irmãos mais velhos já em São Paulo incentivaram o agricultor e pescador a fugir da seca. Do espanto de ver os tantos prédios paulistanos, logo ajudou a construir alguns deles. Mas ele queria mais e acabou entrando numa metalúrgica. Fez cursos. Virou torneiro mecânico, como o presidente conterrâneo. Antes de conhecer a mulher, Betânia Santos da Silva, de 29, com quem teve os filhos Gean, de 3, e Livia, de 11 meses, ergueu dois puxadinhos. Em Heliópolis. Num deles, morou até a semana passada. Vai alugá-lo por R$ 300 e garantir uma renda.
“Cheguei com uma (chinela) Havaiana e ‘tô’ voltando com uma estante, mesa, cama, berço, TV de 20 polegadas, geladeira e um fogão para queimar o feijão”, contenta-se o pernambucano Silva. No fundo, queria ficar, mas a firma em que trabalhava lhe negou um aumento, embora fizesse questão de lhe dar mais responsabilidades. Seu último salário era de R$ 800. No Nordeste, quer comprar um carro, trabalhar por conta própria. “Meu sonho aqui foi concluído. E lá tem menos violência, é um lugar melhor de criar os filhos.”
Transportadores do Brás, com suas empresas de ônibus e caminhões de mudanças, perceberam um boom da migração de retorno nos últimos meses do ano passado. “Trazemos os iludidos e devolvemos os desiludidos”, diz Valdeci Jesus da Silva, outro pernambucano, de Belo Jardim. Ele ganha a vida levando e trazendo nordestinos desde que, cinco anos atrás, comprou seu primeiro caminhão. Hoje possui três, grandões. “São Paulo ficou pior, acabou o emprego para o nordestino. E lá, pelo que vejo e ouço, o padrão de vida melhorou.”
Há uma profusão de razões, como as sugeridas por Valdeci, para explicar por que os nordestinos estão voltando mais. Passa pela saudade da terra, pela adversidade em viver na metrópole e termina no mercado de trabalho. Chegar com uma Havaiana no pé e diploma algum é desemprego na certa. Com ensino médio, tem alguma chance. Caso contrário, resta a rua. O comércio ambulante. E até aí o mundo para o nordestino ficou mais difícil. Só em 2007, a Prefeitura tirou de circulação mais de 7 mil ambulantes, que vendiam produtos ilegais, como os 2,5 milhões de CDs/DVDs piratas ou os 208 mil pacotes de cigarros e bebidas.
“Não é que o Nordeste esteja atraindo, São Paulo é que tem expulsado mais”, arrisca o professor Oliveira, ponderando sobre a influência de ações federais, como o Bolsa-Família, e o aumento de investimentos industriais na região. “Há uma desilusão com ‘as luzes da cidade grande’, falta de emprego, aumento do custo de vida e da violência. E, aqui, não se pode negligenciar a importância dos programas sociais de renda na retenção dessa população potencialmente migrante.”
Dos nordestinos que continuam vindo para o Estado (foram 1.127.410 nos últimos dez anos), muitos acabam migrando para o interior. Gastão Vidigal, Américo de Campos, Bady Bassitt, Jales, Mirassol, Aspásia, Ubarana, entre outros municípios canavieiros, têm acolhido muitos cortadores de cana. E esse tipo de explosão demográfica vem preocupando os prefeitos. Como abrigá-los?
De 1996 a 2006, quando se detecta o aumento do fluxo Sudeste-Nordeste, a Pnad indica que o grupo que mais retornou foi o de homens entre 25 e 34 anos. Ou o de 5 a 14 anos, os filhos dos nordestinos nascidos no Sudeste ou que nasceram no Nordeste e agora retornam com a família. E nos últimos dois anos há um predomínio de baianos e pernambucanos voltando. Em termos de migração absoluta, foram 280 mil.
MIGRAÇÃO VARIÁVEL
São Paulo está perdendo baianos, pernambucanos, cearenses, paraibanos e alagoanos, mas continua a receber maranhenses, potiguares e sergipanos. Só que em número menor do que aqueles que voltam. E paranaenses, goianos, gaúchos e paraenses mantêm o Estado receptor de migrantes.
O empresário José Masci de Abreu, dono da Rádio Atual e do Centro de Tradições Nordestinas, lembra de um cliente que, anos atrás, quis vender um loteamento em Juazeiro do Norte (CE), anunciando na emissora. Pouco tempo depois, satisfeito, o anunciante informou que os compradores eram nordestinos vivendo em São Paulo. “Outro indicador é a indústria de embalagens, que passou a se instalar no Nordeste. Com o Bolsa-Família, a economia local ganhou vida”, disse.
O porteiro Elielson Pedro Rocha Macedo, de 35 anos, voltou para a Bahia com um currículo chamativo. Uma experiência de seis anos em prédios de empresas e condomínios residenciais paulistas. Foi chamado poucos dias depois de entregar a ficha para o Eco Parque Arraial d’Ajuda, em Porto Seguro. “Quando saí do meu último emprego, vim visitar minha mãe em Itabuna e tive a proposta de emprego. Resolvi voltar.”
Elielson voltou com a mulher Adiraci Santos Borges Rocha, de 32 anos, e os filhos William Reyzer, de 12, e Elielson Jr., de 10, todos baianos. Vendeu a casinha do Itaim Paulista por R$ 14 mil, fruto de uma invasão. Progrediu de um quatro cômodos para um de cinco, bem mais amplo e legalizado. “Estou me sentindo melhor, mas a verdade é que já sinto saudades de São Paulo. Falta a muvuca, a correria daí”, brincou.

Sem dinheiro, muitos acabam não voltando
A dona de casa Gercina Jesus Soares, de 29 anos, escreveu esse e-mail: “Gugu, estou lhe escrevendo mas uma vez com muita fé em Deus e confiante que voce vai me ajudar voltar para minha terra. Estou passando muita dificuldade. Tenho uma filha que é especial (de 1 ano e 3 meses), por esse motivo não tenho como trabalhar e tenho um filho (de 3 anos). Gugu, sofro muito; tem dias que fico até perdida”.
Jessica, como Gercina é conhecida, vivia a dar aulas em Piripá, no interior baiano. E a perder o emprego por politicagem. Aquilo não era vida. Migrou em 2002 e um ano depois conheceu o marido, Antonio Balbino do Espírito Santo, de 25. Ele era de Governador Mangabeira, trabalhador de roça. Um irmão que chegou antes sugeriu a ele um emprego de vigia em São Paulo. Topou na hora.
O destino da família que apelou ao apresentador Gugu Liberato, do SBT, começou a mudar com o nascimento da menina Elen. Ela nasceu com meningite, teve paralisia cerebral. Não fala, não anda. Na época, o casal se desesperou. Ainda mais quando ele decidiu gozar os cinco dias da licença-paternidade e na volta perdeu o emprego de vigia no Jardim São Bento, bairro nobre da zona norte. Depois, se virou como ajudante de pedreiro e, agora, auxiliar de limpeza. Ganha R$ 400, emprego instável. Ela fez faxina, trabalhou numa lavanderia e por ter manchado roupas foi mandada embora.
A renda mal dá conta do aluguel de R$ 150 ou de quitar as dívidas, como os três meses de contas de água e luz vencidas. Na última semana, a geladeira estava quase vazia: um pote de feijão preto para quatro dias, leite para um dia, lingüiça e litros de água.
“O dia mais triste da minha vida foi quando tive de escolher entre comprar leite ou levar a minha filha para o médico”, lembra Jessica. Outros dias tristes vieram. Como os domingos, quando ela vê o programa do Gugu e se emociona com as histórias do quadro De Volta para Minha Terra. “Um dia, o meu filho Emerson disse para mim: mãe, não chora, não, o carro do Gugu vai vir buscar a gente para levar para a Bahia.” E há outras, muitas mais, esperando a ajuda do apresentador. Nordestinos com só um sonho: retornar ao Nordeste. Se puderem.

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