Obesidade infantil avança no País e atinge crianças do Bolsa-Família

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Publicada em 8 de março de 2009
O Estado de S. Paulo

Eduardo Nunomura
Considerada um problema de saúde pública, a obesidade infantil passou a atingir mais crianças atendidas pelo Bolsa-Família nas Regiões Sul e Sudeste do País do que a desnutrição. É o que aponta mapeamento feito com base em dados do programa.
Em dezembro de 2006, 11% das crianças de 0 a 9 anos atendidas pelo Bolsa-Família estavam desnutridas no Sul e no Sudeste, ante 10,4% com risco de sobrepeso. Essa relação se inverteu em dezembro do ano passado – 10,2% ante 11,3%. Com a renda mínima oferecida pelo programa, que vai de R$ 20 a R$ 182, milhões de famílias passaram a comprar mais tipos de alimento, o que nem sempre se traduz em qualidade nutricional. Quase 300 mil crianças brasileiras do programa estão com sobrepeso. Equivalem a 11,2% dos avaliados. O avanço do fenômeno, chamado de transição nutricional, preocupa, já que o Brasil tem de lidar com as duas situações – obesidade e desnutrição.
“É um desafio ter que conviver com o pior dos dois mundos”, resume Leonor Maria Pacheco Santos, secretária de Avaliação e Gestão da Informação do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. De um lado, são crianças sofrendo de desnutrição, diarreia, retardo de crescimento – quadro registrado principalmente no Norte e Nordeste. Do outro, elas apresentam hipertensão, diabete, lesões de pele, colesterol elevado. E os dois problemas podem se somar: depois da desnutrição na infância, o excesso de peso na vida adulta.
Estudiosos investigam a relação entre desnutrição da primeira infância com o risco de desenvolver doenças na vida adulta, como obesidade, diabete, cardiopatias e hipertensão. As crianças pobres podem ser as mais afetadas, como sinalizam os dados do Bolsa-Família. “A população que tem mais obesidade é a de baixa renda. Os ricos têm a chance de ir a um spa ou consultar uma nutricionista”, explica Leonor.
A dona de casa Maria Francisca de Souza, beneficiária do programa, tem de lidar agora com o problema da obesidade dos filhos. A agente de saúde Cristiana da Silva Casaes foi a primeira a atender a família de Maria Francisca, no M’Boi Mirim, periferia de São Paulo. Há três meses, uma médica viu Adriana, a filha de Maria Francisca, e determinou: a menina, de 7 anos, não podia passar dos 35 quilos. De lá para cá, a mãe resolveu o problema fugindo da balança da farmácia.
“O que vou fazer? Só se costurar a boca da Adriana”, diz Maria Francisca. Adriana faz três refeições em casa, se os vizinhos oferecerem comida ela aceita e na escola acrescenta um lanche e um “jantar”. Quando o pai, ajudante de pedreiro, recebe um dinheiro, a despensa ganha iogurtes, bolachas e muitos pães. Aí é a vez de Adriano, o outro filho, atacar. Ele tem 9 anos e pesa 47 quilos.

Comerciais miram consumo infantil
Com o programa Bolsa-Família, os pobres vêm consumindo mais biscoitos, óleos e gorduras, açúcares e alimentos industrializados – superando frutas, verduras e hortaliças. Mas os R$ 102 que Maria Francisca de Souza ganha servem para manter uma despensa tão espartana quanto a de Cícera Simone dos Santos, mãe de dois meninos que já foram desnutridos. Na semana passada, as duas guardavam pacotes de macarrão, feijão, extrato de tomate, fubá, óleo, açúcar e farinha. Na casa de Maria, nada de carne, frutas, verduras, legumes. Na de Cícera, nem geladeira tinha. Mas ambas têm televisão, e é aí que mora o perigo, apontam especialistas. As TVs estão presentes em 94% dos lares brasileiros.
As crianças são o alvo preferencial de propagandas de alimentos, aponta estudo do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição, da Universidade de Brasília (UnB). De acordo com o levantamento, 71,6% dos alimentos anunciados na TV são, nesta ordem, fast-food, guloseimas e sorvetes, refrigerante e suco natural, salgadinho de pacote e biscoito doce ou bolo; e 73,1% dos produtos estão prontos para consumo – a maioria rica em gordura, sal e açúcar.
Desde 2006, o País discute uma nova regulamentação para a publicidade de alimentos. Para os profissionais de saúde, é hora de banir comerciais de comida com altas taxas de gordura, açúcar e sal entre as 6 e 21 horas, e proibir a associação de brinquedos a alimentos em qualquer horário. Se dependesse deles, chocolate, achocolatados e refrigerantes doces sairiam da TV, das revistas e dos jornais. Cereais e biscoitos, só se mudassem a fórmula de seus produtos e reduzissem os teores de açúcar.
“As mães começam a dar papa cheia de farinha, biscoitos doces, refrigerantes e até iogurtes com açúcar já na primeira infância, antes dos 3 anos”, diz Renata Monteiro, coordenadora da pesquisa da UnB. “A situação é parecida com a do cigarro, mas a indústria de alimentos é poderosa e até agora conseguiu barrar o controle.”
Para o pesquisador Carlos Augusto Monteiro, da Universidade de São Paulo, a propaganda de alimentos está cada vez mais sofisticada, agressiva e eficaz. “Ela é viável a partir do enorme lucro que as empresas têm com produtos feitos de matéria-prima baratíssima – açúcar para refrigerante, óleo vegetal para biscoitos, por serem produtos de marca e produzidos por megacorporações.” Metade de uma simples barra de cereal pode ser feita de açúcar, exemplifica Monteiro.
Desde dezembro, o Conselho de Autorregulamentação Publicitária (Conar) sustou dez anúncios dirigidos a crianças e adolescentes. A ONG recebe denúncias dos consumidores e talvez por falta delas as propagandas de alimentos infanto-juvenis continuem no ar. Na pesquisa da UnB, dos 565 comerciais diferentes analisados, só 38 foram julgados pelo Conar.

Norte e Nordeste ainda sofrem com desnutrição
Artigo publicado na Revista Saúde Pública, no mês passado, indicou que, “em cerca de mais dez anos, a desnutrição infantil poderia deixar de ser um problema de saúde pública no Brasil”. Para isso, basta continuar aumentando a renda dos mais pobres e universalizar educação, saúde e saneamento. Foi o que ocorreu na última década. A prevalência da desnutrição caiu de 13,5% em 1996 para 6,8% em 2006 e 2007.
Segundo o artigo, dois terços da redução devem ser creditados ao aumento da escolaridade das mães (25,7%), da renda (21,7%), do acesso à saúde (11,6%) e à melhora das condições de saneamento (4,3%). Os pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo atribuem essas melhorias à universalização do ensino fundamental nos anos 1990, à distribuição de renda, sobretudo a partir de 2003, e ao Programa Saúde da Família. A queda vem ocorrendo desde 1975. Se manter o ritmo, a meta do milênio das Nações Unidas de reduzir à metade a desnutrição infantil “será largamente ultrapassada”.
A desnutrição no Bolsa-Família ainda é crônica nas Regiões Norte e Nordeste, com prevalência de 23,1% e 16,9% – ante os 9% e 11,8%, respectivamente, para o excesso de peso. Em todo o País, mais de 400 mil crianças atendidas pelo programa estão desnutridas. Na casa de Cícera Simone dos Santos, os filhos Vitor Alexandre, de 4 anos, e José Messias, de 5, servem de exemplo. Desde que a agente de saúde Judith Ana soube do drama das crianças, ela acompanha a família de perto.
Cícera, que estudou até a 7ª série, ignorava haver um problema grave, sobretudo com o filho menor. Vitor, quando tinha pouco mais de 1 ano, não parava em pé nem passava dos 8 quilos. Ficou internado três dias, recebendo soro e sangue. Cícera se penitencia. “Me senti irresponsável, tive medo de perdê-lo.” Com a multimistura que recebeu nas visitas da Pastoral da Criança, o sopão comunitário e os R$ 102 do Bolsa-Família, seus filhos deixaram para trás o fantasma da desnutrição.

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