No Paraguai, uma base do PCC

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Publicada em 27 de agosto de 2006
O Estado de S. Paulo

Eduardo Nunomura
ENVIADO ESPECIAL
PONTA PORÃ
O crime organizado brasileiro elegeu a cidade paraguaia de Pedro Juan
Caballero, ao lado de Ponta Porã, como refúgio de bandidos e paraíso para
lavar dinheiro e traficar armas, maconha e cocaína. “Todo mundo sabe que
estamos aqui, o que é isso aqui, mas só estamos trabalhando”, diz um
integrante do PCC, uma vez preso em São Paulo e hoje livre para operar no
país vizinho. É dele a advertência, no mínimo insolente: “Podem fechar essa
fronteira e já temos outras para atuarmos.”
A divisa entre Mato Grosso do Sul e o Paraguai é protegida por 20 agentes da
Polícia Federal (PF) e pelo Exército brasileiro. Cerca de 600 soldados estão
a menos de três quarteirões do lado paraguaio. Passam a maior parte do tempo
realizando treinamento no quartel, bem perto de onde o crime se alastra.
O Estado localizou o integrante do Primeiro Comando da Capital por meio de
indicações de autoridades brasileiras e paraguaias. Não é segredo para
ninguém onde moram muitos criminosos no Paraguai. Ele recebeu a reportagem
em sua casa, protegida por capangas no imóvel da frente. Foi gentil, admitiu
a ligação com a facção criminosa e confirmou a maioria das informações das
mesmas autoridades. Negou, contudo, que exista um exército do PCC no
Paraguai. Disse que há um número variável de membros do grupo, menos de dez,
que estão fugindo da Justiça ou trabalham para o crime organizado. “Isso não
acabará nunca, nem os americanos, nem ninguém consegue parar, como vão
conseguir fazer isso?”
O PCC se estabeleceu há 5 anos no Paraguai, 3 anos depois do Comando
Vermelho (CV), a facção criminosa carioca de Fernandinho Beira-Mar. Naquela
época, Pedro Juan Caballero era terra de achacadores. Comerciantes tinham de
pagar pedágio de 20% para trabalhar. “A fronteira era o maior sem futuro, a
maior extorquisão (sic)”, diz ele. Como no Brasil, os criminosos passaram a
ajudar quem tinha dificuldades, e não são poucos. Ganharam a simpatia e a
conivência dos paraguaios.
Para saber onde termina Ponta Porã e começa Pedro Juan Caballero só lendo os
letreiros e as placas. São cerca de 700 quilômetros de divisa por Mato
Grosso do Sul, sem barreiras. Vão de estradas de terra até avenidas largas
de ambos os lados, cortadas por cruzamentos asfaltados. O movimento de
caminhões e carros nas estradas paralelas aos dois países é intenso. Não é
preciso cédula de identidade, de motorista ou passaporte.
E há a muamba, o contrabando de cigarros, brinquedos, aparelhos eletrônicos,
CDs e DVDs piratas. Paga-se tudo com real, guarani ou dólar. Pedro Juan
Caballero é uma versão de Ciudad del Este sem a Ponte da Amizade. As
fiscalizações ocorrem na BR-163, que liga Ponta Porã a Campo Grande.
Apreende-se muito, deixa-se passar uma montanha de produtos ilegais, admitem
os policiais. Até meados dos anos 1980, o contrabando era de café, soja e
açúcar. Depois veio a maconha, hoje nas mãos de traficantes brasileiros.
Na semana retrasada, foram apreendidos cerca de R$ 4,5 milhões em notas
falsas. O fiscal da Justiça Justiniano Cardoso Gomes não descarta que esteja
relacionado ao crime organizado. O que já se sabe é que para quatro notas
falsas de R$ 50 paga-se com uma verdadeira.
Esse terreno fértil de tolerância e ilegalidade fez do Paraguai a opção
natural para as rotas de tráfico. Após a Lei do Abate, que permite derrubar
aviões suspeitos em espaço aéreo brasileiro, um piloto que cobrava R$ 5 mil
para servir aos barões do tráfico do Rio e de São Paulo passou a pedir R$ 25
mil por causa do risco. Em Pedro Juan Caballero, a droga chega e é lançada
do alto num terreno ao lado de um aeroporto, onde caminhonetes já estão à
espera. Depois, as aeronaves aterrissam para esperar a próxima encomenda.
ARMAMENTO
Portar ou comercializar armas no Paraguai não é crime. Seguranças armados de
pistolas, escopetas e rifles protegem bancos, comércio, camelôs, cidadãos
honestos e traficantes. A partir de 2002 uma nova lei proibiu a sua venda
para estrangeiros que não morem naquele país. Segundo a ONG Viva Rio, que
divulgou no fim de 2005 um extenso relatório sobre esse tema, as medidas
surtiram efeito e houve significativa redução desse mercado ilegal. Na
prática, as lojas começam a diversificar seus produtos e o crime organizado
passou a buscar rotas pela Argentina e pelo Uruguai.
“No Paraguai, o crime organizado tem invadido a política, procurando eleger
candidatos favoráveis”, alerta o governador de Amambay, Roberto Acevedo, que
combate o narcotráfico.
A Senad paraguaia é uma espécie de oásis num país onde a polícia, o
Exército, o Judiciário e os políticos tomam partido, algumas vezes o do
crime organizado. Foi o órgão que prendeu em 27 de julho Marcelinho Niterói,
considerado homem forte de Beira-Mar. Com a prisão dele foi possível
impedir, no dia 11, o envio de um arsenal com centenas de pistolas, fuzis,
metralhadoras e munição. A carga seguia para o Rio.
O dono da loja de onde saíram as armas, Alberto Dornelles Rodriguez, foi
preso pela PF na sexta-feira. Segundo as investigações, Niterói estava na
fronteira também para retomar o controle do CV sobre o tráfico de drogas na
região de Capitán Bado, onde Beira-Mar tem uma fazenda.
O juiz José Gabriel Valiente aplicou multa de US$ 13 mil ao traficante,
confiscou sua documentação paraguaia falsificada e imaginou que poderia
entregá-lo preso às autoridades brasileiras. Na noite de 17 de agosto,
Niterói foi ouvido pela PF e saiu pela porta da frente da delegacia de Ponta
Porã. Livre.

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