Já são dez crianças

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Publicada em 2 de fevereiro de 2000
Veja

Eduardo Nunomura e Leandro Loyola
Cabeça baixa, a voz sai monocórdica. Nenhum sinal de emoção, apenas o tique de alisar os cabelos ensebados com as mãos: “Eu iludia as crianças. Ia com jeito. Falava e oferecia bala. Nunca contei quantas foram”.
Preso desde o último dia 13 na delegacia de Rio Claro, cidade do interior paulista, Laerte Patrocínio Orpinelli lembra, isso sim, que depois de matar a “raiva passa”. A raiva insana fez até agora dez vítimas fatais. Foram seis meninas e quatro meninos. O mais velho tinha 11 anos. A mais nova, 3. Era tudo muito rápido — a atração, o passeio até um lugar ermo, geralmente o abuso sexual e sempre a morte. Orpinelli esmurrava a cabeça das crianças, principalmente a boca e as têmporas. Algumas chegaram a ficar com o rosto desfigurado tamanha a violência dos socos. “Eu ficava nervoso e atacava”, contou o assassino a VEJA. Orpinelli pode não se lembrar de quantas crianças exatamente atacou, mas quando está diante da fotografia de uma delas dá detalhes da abordagem, da investida e do local onde deixou a vítima. Dos dez assassinatos cuja autoria ele admitiu, apenas três corpos não foram encontrados. Mas as informações fornecidas por Orpinelli sobre a hora e o local do rapto coincidem com as denúncias das famílias. Nos restantes, os exames dos médicos-legistas equiparam-se aos relatos do louco.
Os ataques de Orpinelli se concentravam em cinco cidades do norte de São Paulo. A distância entre uma e outra não ultrapassava 260 quilômetros. Nascido em Araras, na região, ele passou os últimos 25 de seus 47 anos perambulando pelo interior do Estado. Ia de um canto a outro de trem ou carona de caminhão. Vivia de lubrificar portas de bares e lojas com graxa. Como pagamento, recebia uns trocados, um prato de comida ou uma dose de pinga. Dormia em albergues para indigentes ou em construções abandonadas. Orpinelli tinha o costume de anotar em cadernetas a data da passagem em cada uma das localidades. A partir dos diários do andarilho, os investigadores do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, o DHPP, cruzaram as informações escritas por Orpinelli com os casos de desaparecimento infantil. De 1995 até ser preso, ele visitou 26 cidades, que registram o sumiço de 120 crianças de até 12 anos.
Orpinelli assumiu a autoria de dez mortes violentas. Uma das vítimas é Crislaine Cristina dos Santos Barbosa, a garotinha de apenas 3 anos. Ela foi vista pela última vez em 25 de abril de 1999, em Pirassununga, a 206 quilômetros da capital. O andarilho confessou ter seguido a menina e a mãe dela, Nair, até a casa onde moravam. Encontrou a porta encostada e Crislaine sozinha na sala. Entrou e a levou no colo. “Eu não estuprei ela. Eu só matei com murros na cabeça e no rosto e quebrei os dentes. Saiu sangue do nariz e da boca. Eu não quis passar a mão nela”, contou ele à polícia. Quatro meses depois de Crislaine desaparecer, uma ossada foi encontrada em um canavial, atrás de um motel. O crânio estava sem os dentes da frente. Os ossos foram enviados para um teste de DNA, previsto para ficar pronto em fevereiro.
A polícia sabe que tem um trabalho duro pela frente. A confissão de Orpinelli apenas não basta. Ele diz ter matado em 1996, em Rio Claro, Aline dos Santos Siqueira, de 8 anos, e Anderson Jonas da Silva, de 6. Mas eles ainda estão desaparecidos. Como Orpinelli nunca enterrava suas vítimas, os corpos ficavam largados no mato, expostos às mudanças climáticas e aos ataques de animais. Além disso, Orpinelli vai e volta em suas declarações. Com a notícia de sua prisão, delegados de outras cidades foram até Rio Claro em busca de confissão para casos de desaparecimento ainda sem solução. O de Bauru levou a fotografia de uma menina sumida na década de 70. Mostrou a imagem dela para Orpinelli e quis saber: “Lembra dessa?” Ele respondeu: “Não é estranha”. O de Potirendaba obteve uma confissão informal do assassinato de uma garota no dia 12 de junho de 1997, às 11 horas. No mesmo dia, no entanto, Orpinelli estava a 175 quilômetros de distância. À 1 hora da tarde, ele raptou e matou Renata Campos, de 5 anos, em Araraquara. O delegado de Itu levou um caso de 1984. “Precisamos investigar. Mas a convicção de que tenha sido ele é fraca”, afirmou o delegado Moacir de Mendonça. O andarilho errou ao informar o local do crime. Além disso, ao lado do corpo, haviam sido encontrados um pote de vaselina e um par de luvas de limpeza — artefatos que Orpinelli nunca utilizou, ao menos nos crimes ligados a ele. Na entrevista a VEJA, disse: “Eu inventei tudo, confessei o que eles (a polícia de Rio Claro) falavam porque queria ser internado em um sanatório”.
Não seria a primeira internação do andarilho. Entre 1967 e 1969, Orpinelli foi internado doze vezes na Clínica Psiquiátrica Antônio Luís Sayão, em Araras. A última internação foi em 1993, por algumas semanas. O motivo, segundo José Carlos Naitzke, diretor da clínica: embriaguez patológica, doença em que uma pequena quantidade de álcool, por menor que seja, deflagra uma transformação de personalidade, muito comum em alcoólatras ou ex-alcoólatras. E Orpinelli bebe desde o final da adolescência. “Foi a bebida que me atrapalhou”, diz. Além disso, ele sempre foi violento. Sétimo filho de uma família de nove irmãos, na infância era amarrado pela mãe ao pé de uma mesa para evitar problemas com vizinhos. Quando se soltava, vingava-se atirando tijolos nela. Outra carcterística de sua personalidade: fixação por ser o centro das atenções. Nos últimos dias, durante os depoimentos, reclamava se era interrompido. “Estou falando”, esbravejava. De manhã, perguntava aos carcereiros: “Quantos clientes tem aí na porta?” Os clientes eram a imprensa e os delegados das cidades vizinhas.

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