RETRATOS DO BRASIL FUTEBOL Uma Copa do Mundo no sertão

0
65

Publicada em 7 de junho de 2006
O Estado de S. Paulo

Eduardo Nunomura
‘Má, rapá, o que ocês vieram fazer neste fim de mundo? Esse Poeirão não vale
nada, não. É futebol ruim demais, visse’, surpreende-se João Ferreira, de 43
anos.
O “fim de mundo” se chama Vale do Piancó, onde a natureza foi generosa. Deu
rochas cristalinas sob a forma de colinas onde brota água fácil. Ao longo do
Rio Piancó, perene, há uma das bacias hidrográficas mais ricas da Paraíba. A
temperatura varia de 28 a 32 graus, o ano todo. É sertão, mas a seca não
castiga. A luta é outra. O nordestino tem de vencer a economia estagnada,
que leva à falta de empregos, que leva à vida de poucas perspectivas, que
leva ao êxodo dos jovens. O futebol, quem diria, faz alguma diferença. A
bola, o gramado, os campos de terra e pedra, os jogadores e as centenas de
times que disputam, há 30 anos, o Poeirão. É a Copa do Mundo do Sertão, o
maior torneio de futebol de várzea do Nordeste.
O futebol de várzea sobrevive pulsante nos interiores do País
Futebol é feito de sonhos. João Ferreira abandonou o seu porque um “cabra”
prometeu dois salários mínimos na época em que era amador por um emprego
mais certo. “Deus, quando fecha uma porta, abre uma janela”, diz o hoje
frentista de um posto de combustível na cidade de Piancó. Ex-meia-esquerda,
ele acha engraçado, manga mesmo, que uma equipe de reportagem paulista,
justamente onde está o seu “melhor time do mundo”, o São Paulo Futebol
Clube, queira conhecer o Poeirão. “A quarta divisão do campeonato de vocês é
melhor.”
De Piancó, onde vive Ferreira, a Itaporanga são 29 quilômetros. A estrada é
de asfalto, cheia de panelas, as crateras que aparecem com a falta de
manutenção. Antes de chegar ao centro desta cidade, surge o Estádio José
Barros Sobrinho, o Zezão. Ele é a porta de entrada, não a janela, para os 22
mil habitantes que dependem de uma economia baseada em três fábricas de
panos de chão e flanelas, na agricultura familiar, na pecuária modesta, no
comércio variado e nas transferências de renda governamentais. Itaporanga
podia ser só mais um pontinho no mapa do Brasil, despretensiosa e esquecida,
não fosse a baita festa que promove por causa do futebol.
O Poeirão começa no Dia do Trabalho. Virou tradição aproveitar o feriado
para reunir trabalhadores, desempregados e políticos em torno do Zezão.
Nesta data, é dado o pontapé para um campeonato de mata-mata, com dois
tempos de 15 minutos, cujo campeão só surge após duas semanas. Isso porque
neste ano foram 138 equipes inscritas, 2 a menos que em 2005. O recorde foi
em 2000, com 170 times, quase o dobro dos anos 90 ou 10 vezes o número de
inscrições da primeira edição, em 1976.
Naquele ano, o presidente fundador do Atlântida Esporte Clube, Heleno
Feitosa Costa, queria levar alegria aos trabalhadores rurais na sua data. Na
cidade só havia as equipes Carcará e Bem-Te-Vi, “times urbanos”. Os
agricultores, a grande maioria, ficavam de fora. Daí a idéia original de
fazer um campeonato com agricultores. A concepção se mantém, mas os
nordestinos foram exagerando na festa. Hoje, o futebol é um pretexto para
muitos se divertirem no forró, na azaração à beira do gramado, nas conversas
fiadas entre jogadores, parentes e amigos, na bebida farta e comida barata
das barracas.
Os itaporanguenses querem que o Poeirão seja reconhecido nacional e
internacionalmente. Por isso comparecem em peso para acompanhar o festival
de lances bizarros, futebol de menos, ruindade de mais. Há exceções, claro.
Em muitos jogos a bola, inacreditavelmente, rola no gramado do Zezão. O
torneio esconde Jogadores (com J maiúsculo) entre a imensa maioria de
pernetas – são mais de 2 mil jogadores. Edmundo, do ASA, é um deles.
Autor dos dois primeiros gols do Poeirão 2006, Raimundo Clementino da Silva,
de 36 anos, é mais conhecido como “Edmundo do Cruzeiro”. Jogou no clube
mineiro entre 1995 e 1997, tornando-se orgulho da cidade. Marcou cinco gols,
chegou a ser titular. Antes, havia participado de muitos Poeirões até que em
1989 obteve uma chance no Sport de Patos. Ao contrário do frentista João
Ferreira, arriscou ganhar um salário mínimo. O atacante tinha talento, a
sorte não lhe faltou. Desse time foi para o Vila Nova, de Minas, e de lá
para o Cruzeiro.
No Bahia, o clube seguinte, lembra da última partida de um Brasileirão.
Precisavam ganhar para não cair. Edmundo marcou contra o Flamengo, e o
Fluminense foi rebaixado. Para ele, seu gol histórico. Depois, foi sendo
transferido para outros clubes de São Paulo, Maranhão, Rio Grande do Norte e
até da Líbia. Agora está sem nenhum. Voltou à rotina do interior. “O futebol
no campinho da cidade, ou na TV, é a felicidade desses moradores. Se
depender de nós, jogadores, o brasileiro vai ser sempre feliz.”
O Zezão é um estádio sem acomodações para o público (“Políticos, cadê a
arquibancada?”, cobrava uma faixa no primeiro dia), mas ao menos tem gramado
para os jogadores. Para estes, é como pisar no Maracanã. Em seus campos de
treino, a bola rola na poeira ou, com sorte, no capim. A equipe do Jurema
fez assim: numa carroça foi trazendo mudinhas de capim-de-burro ou
pé-de-galinha do terreno vizinho. Em 20 dias, gramou o campo todo. Francisco
Coringa dos Santos, de 59 anos, o presidente do time, agora vê o treino da
porta de casa. “Curiando (assistindo), já tô vendo o movimento e pensando na
escalação”, diverte-se. Seus cinco filhos nem precisariam treinar, são
titulares absolutos.
O Time dos Irmãos, apelido carinhoso do Jurema, é um bom exemplo de uma
hipotética primeira divisão do Poeirão. No mata-mata, todos são iguais, mas
entre eles há equipes estruturadas. Isso porque o Jurema treina três vezes
por semana, promove amistosos, conta com o gramado de capim e até uma
barreira artificial. Na verdade, um despedaçado tapume de madeira suspenso
por canos de ferro enferrujados. Idéia do mecânico e zagueiro Donilton
Coringa.
Já o Turma da Latinha é o oposto do Jurema. De bloco de São João (no
Nordeste, sinônimo de forró), virou time de futebol. Tem até um lema:
“Ganhando ou perdendo, a gente bebe.” Em sua cidade, Diamante, até ganharam.
Foram três torneios pequenos, entre eles o Lamão, uma versão compacta e
preliminar do Poeirão. Como prêmio, três bodes. Dois foram vendidos e um
virou prenda de bingo. Com os R$ 300,00 arrecadados, compraram os agasalhos
do time (que os varzeanos chamam de “padrão” ou “terno”) para a estréia do
Poeirão. Conquistaram o troféu Uniforme Mais Bonito deste ano. Pura
consolação. Disputaram a primeira partida do torneio e perderam por 2 a 1.
Houve os que voltaram para casa com o “terno” sequinho. “Pelo menos não
preciso lavar”, consola-se o estudante Raul Fernandes, de 16 anos.
PANCADINHA
O futebol de várzea está sumindo nas grandes cidades. No lugar dos campos,
as construções. Quem quer seguir carreira vai para as escolinhas. No
interior, a várzea sobrevive pulsante. É amadora por excelência, improvisada
por necessidade. Amigos e colegas querem se divertir juntos. Montam uma
equipe. O motivo é a bola. O delegado Pedro Viana explica: “Formamos o time
hoje, mas só chamamos os cabras mais ruins.” O Polícia Civil F.C. (não podia
faltar o detalhe do F.C., futebol clube) reuniu 15 delegados, investigadores
e escrivães. Quando o time do delegado joga quem faz a segurança do estádio
são os policiais militares. No dia seguinte, na vez do Polícia Militar F.C.,
os civis zelam pela paz na cidade.
O Vale do Piancó é uma região violenta, aos olhos do delegado Viana.
Recentemente, ele esteve à frente da prisão de oito de uma gangue e de
outros quatro envolvidos num duplo homicídio. “Mata-se por roubo ou terra.
Os outros, eventuais, possivelmente por bebida.” E é mais difícil combater o
crime ou os adversários, delegado? “O crime. O futebol, mesmo se não jogar
nada, só faz bem.” Doutor, e bater nos adversários no campo, pode? Ele ri.
“Uma pancadinha não faz mal nenhum.” Com pancadinha, não deu certo. O
Polícia Civil F.C. foi goleado por 4 a 0 na sua estréia contra o Fricotinho,
uma equipe formada por bancários e comerciantes.
No Poeirão, os nomes dos times são sugestivos: Os Bezorão, Limpeza Pública,
Pastelão, Big Broder, Monte Videu, A Turma das Vainhas, Os Caneiros, Capim
Grosso e Ponte Preta da Roça Acima. O frentista Damião Almir, de 27 anos, do
Internacional de Lagoa Seca, interrompe o forró só para contar que
treinamento é na base do improviso. Rede, apenas uma na trave onde são
cobrados os pênaltis. “Na outra deixamos rolar.” Gramado ou terrão? “Antes
de jogar, tem de ficar na roçadeira.” E a bola? “Só tem duas, uma nova e
outra que o prefeito de Boaventura deu. Toda remendada.”
O Cantinho F.C., campeão de cinco edições do torneio, sempre é apontado como
um forte candidato ao título. Mas perdeu na terceira rodada. “Nosso time é
badalado, o nome pesa”, afirma João Rodrigues Ferreira, de 42 anos, o
Parreira da equipe que fica na comunidade de mesmo nome. Lá moram 70
famílias de pequenos agricultores, que ainda confiam no jegue para fazer
muitas coisas, inclusive carregar o time até o estádio. Para falar dos
esquemas 3-5-2 ou 4-4-2 com tanta naturalidade, ele vê mesas-redondas na TV,
ouve os programas do rádio e repete a frase feita de todo boleiro: “Futebol
é coisa séria.” No Nordeste, os mais velhos ainda são torcedores dos times
cariocas, mas os mais jovens preferem os paulistas. O agricultor Ferreira é
vascaíno e admirador de apenas três treinadores: o da seleção, Vanderlei
Luxemburgo e Luiz Felipe Scolari.
Dizem os itaporanguenses que há mais campos de várzea que igrejas no Vale do
Piancó. Lá não está o celeiro de Ronaldinhos jamais descoberto do Brasil. O
que há é um povo que, como a maioria dos brasileiros, ama a magia de ver a
bola correndo imprevisível nos campinhos. Antonio Rodrigues Pita de Bruno,
sitiante com açude em Itaporanga, é um dos que alimentam essa paixão. Há
alguns anos, seus empregados pediram e ele não hesitou em ceder um terreno,
onde antes havia plantio de feijão e milho. Virou o “campo do Bruno”, um
autêntico poeirão. Não há uniforme que resista. Num canto, fica o cemitério
das chuteiras, aqueles calçados desgastados rapidamente de tanto chutar
terra e pedra.
TAÇA GIGANTE
Aos poucos, a modernidade vai chegando à várzea. Em vez de jegues, motos. É
a febre dos últimos anos, o sonho das Marias Chuteiras (que são muitas!).
Estas começam a aparecer só depois das 18 horas, em duplas ou trios, sempre
muito perfumadas. Uma ou outra vai de salto alto, no meio da lama em torno
do gramado. No machismo paraibano, mulher acima de 20 anos é coroa. Por
isso, os olhos dos homens que bebem cachaça e cerveja nas barracas e no
forró só vêem as mais jovens. “Essa é uma festa da ilusão”, protesta a
universitária Fabiane Andrade, de 26 anos. “Nesta região, faltam bons
empregos, faculdade. O Poeirão é mais um tira-pão. Muitos deixam a família
em casa para vir aqui farrar (se divertir).”
Wellington Tolentino, presidente do Atlântida, o clube que organiza o
Poeirão, rebate as críticas. “O que atrai aqui é o futebol. Botem só as
barracas, o forró e não haveria duas semanas de festa”, diz. Cerca de 30 mil
pessoas freqüentam o Zezão durante o torneio. É mais que a população de
Itaporanga. A festa começa depois das 21 horas. Os jogos terminam à
meia-noite; o forró pé-de-serra, bem depois. No espaço reservado para a
dança, mulher não paga e homem, apenas R$ 1,00. Quem lucra são os 18
barraqueiros do Poeirão.
Depois de duas semanas, 135 jogos e 402 gols marcados, o Estrela de Emas
conquistou o título do Poeirão 2006, derrotando o Jurema por 3 a 2 na final.
Ganhou R$ 1.200,00, um garrote e a taça de 2,10 metros de altura, doada pelo
comerciante Cícero Carneiro Neto, de 43 anos e 1,69 metro. Apaixonado pelo
futebol, há alguns anos ele cismou em doar a taça do time campeão. E olha
que a concorrência é grande. Este ano foram 80 troféus doados por
comerciantes e sitiantes. O Poeirão não é o único supertorneio de várzea do
País. É menor, inclusive, que o Peladão, realizado todos os anos em Manaus.
Assim, o sonho dos itaporanguenses de figurar no livro dos recordes jamais
vai se realizar. Mas a Copa do Mundo do Sertão com sotaque bem nordestino e
alegria genuinamente brasileira já é uma realidade que atravessou bravamente
duas gerações. E deu um outro sentido para a vida em Itaporanga.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here