Darlene volta para o crack e é presa por roubo

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Publicada em 7 de setembro de 1997
O Estado de S. Paulo

EDUARDO NUNOMURA
A menina de rua Darlene de Souza Cordeiro Lúcio, de 19 anos, teve a oportunidade
de deixar as drogas e a violenta vida na rua. Posou para uma revista
internacional, ganhou um tratamento em uma clínica de viciados e virou notícia
da noite para o dia: deixou a chance escapar. Preferiu refugiar-se no crack.
Anteontem, foi presa em flagrante por roubar a dona de casa Maria de Lourdes
Oliveira, de 41 anos, na Estação Santa Cecília do metrô, no centro.
Foi apanhada com um cachimbo de crack, uma correntinha sem valor e um walkman.
Darlene foi transferida ontem para o presídio feminino do 83° Distrito
Policial, no Parque Bristol. Em junho, já havia sido presa por roubo. Quer
outra chance, mas tem poucas esperanças. Acha que já viveu muito. A seguir os
principais trechos da entrevista ao Estado:
Estado – Por que você decidiu roubar desta vez?
Darlene Souza Cordeiro Lúcio -Eu não gosto de pedir, é muita humilhação. Então
saí para roubar. Estava com fome e pedi um trocado e a mulher gritou. Aí eu
peguei o walkman e o cordão dela. Se eu soubesse que ela ia me denunciar, eu
tinha matado ela.
Estado – Você estava sozinha?
Darlene -Eu só ando sozinha, não tenho amigos. Ninguém tem amigo no mundo, não.
Antes eu roubava no sinal e também nos bancos 24 horas.
Estado – Como tem sido sua vida ultimamente?
Darlene -Na rua, fumando pedra e roubando. Eu saí da cadeia há dez dias, do 73°
DP. Lá perto fica a favela de Serra Pelada, onde tem o tubo (ponto de drogas).
Eu ia lá ficar noiada.
Estado – Você continua com as drogas?
Darlene -A última vez foi anteontem. Fumei, caí de bode e dormi. Conversava
sozinha, não sabia onde estava. Para mim, é meu inimigo que está me dando a
droga. Eu fico dez dias sem dormir. Teve vez que foram 300 pedras de uma vez.
Na nóia, eu só converso e penso em maldade. Às vezes, faço sem querer. Fico com
vontade de meter a faca nos outros, acho que a droga comeu meu cérebro.
Estado – Mas você chegou a ser internada em uma clínica para tratamento.
Darlene -Eu queria ter voltado para lá, mas não sabia como chegar. Eu e mais
uns cem boyzinhos, tudo filhinho de papai, fugimos por causa da droga. Mas eu
estou com saudades da Renata, psicóloga da Clínica Casa de Caminho.
Estado – E por que o tratamento não deu certo?
Darlene – Eu não tinha vontade. Hoje em dia eu tenho, mas não sei voltar para
lá. Bem que eles podiam dar uma força. Eu não melhorei porque eu não quis, se
eu quisesse estava numa boa. Estou aqui de trouxa.
Estado – Tem esperança de se recuperar?
Darlene -A rua não tá com nada, é muita matança. Eu mesma ferrei com minha
vida. Eu vou para a cadeia só para engordar. Tomara que fique bastante tempo.
Na cela, eu não uso droga.
Estado – E vai conseguir melhorar na cadeia?
Darlene -Eu não sei viver. Tenho vontade de morrer para ver como é que é. Na
cadeia, eu quase me suicidei, me enforcando.

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