‘A cúpula do PT me pediu para não revelar os empréstimos à CPI’

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Publicada em 16 de agosto de 2005
O Estado de S. Paulo

Eduardo Kattah
Eduardo Nunomura
BELO HORIZONTE
O empresário Marcos Valério Fernandes de Souza disse ontem que omitiu muitos
fatos, em seu primeiro depoimento à CPI dos Correios, porque foi “tolhido”
pela cúpula do PT para não expor o partido. Em entrevista ao Estado, Marcos
Valério contou que o ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares, o
ex-secretário-geral Silvio Pereira e o ex-presidente José Genoino pediram
que ele não falasse à CPI sobre os empréstimos que tomou e repassou à
legenda.
“A partir do ponto que eu pude revelar, houve uma tentativa de me
desacreditar”, afirmou o acusado de operar o mensalão, dizendo-se
abandonado. “Não vou aceitar isso.”
Valério disse, também, que o publicitário Duda Mendonça vai ser
desmascarado. Aposta que as investigações dispensarão uma acareação entre os
dois, como ele mesmo sugeriu. “Cada vez a versão do senhor Duda vai sendo
desmontada.”
Para o acusado de ser o operador do mensalão, é quase certo que o
publicitário por trás da campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva
já mantinha contas no exterior há mais tempo, por meio de offshores, para
receber dinheiro de caixa 2. “Ele já trabalhou com Paulo Maluf e tem esse
episódio com o Eduardo Azeredo”, insinuou, referindo-se ao tucano pelo
pagamento de R$ 3,8 milhões fora da contabilidade declarada.
Valério afirma que se sente traído, abandonado e usado, teme pela sua vida e
se compara a Tiradentes – considera-se “enforcado” pelo governo – e a Geni,
personagem da música Geni e o Zepelim, de Chico Buarque. “A piada hoje é: se
acontece uma coisa ruim, bota o Marcos Valério nessa história.”
O empresário, que depõe hoje na Polícia Federal, disse que está sendo
crucificado por muitos, mas ainda guarda forças para seguir adiante, graças
a orações feitas por grupos de evangélicos. A seguir, a entrevista:
O senhor acredita que Duda Mendonça já movimentava contas no exterior além
da Dusseldorf?
O senhor Kalid (Jader Kalid Antônio, apontado por Marcos Valério como o elo
entre Duda e os sacadores da agência de publicidade SMPB) tem razão: a conta
do senhor Duda Mendonça pode ser de campanhas passadas. Ele já trabalhou com
o senhor Paulo Maluf e tem esse episódio com o Eduardo Azeredo. Tudo o que
venho falando vem se comprovando. Primeiro, falou que fui eu quem levou a
conta própria. Depois foi mudando, disse que foi o gerente do BankBoston. O
banco solta nota falando que nunca fez isso. Depois os bancos BAC da Flórida
e de Israel dizem que nunca fui cliente deles. Cada vez a versão do Duda vai
sendo desmontada.
Ainda está disposto a uma acareação com Duda Mendonça?
Tudo já está vindo à tona. Nem vai precisar de acareação. Isso é bom para o
Brasil: passar a limpo e ver como eram feitas as campanhas políticas. Era
muito mais fácil para os deputados blindarem o Duda, que é um grande
publicitário, e pode fazer as campanhas no futuro para eles. Eu não. Posso
ser jogado aos leões, ser devorado, execrado em praça pública. O Duda foi
depor com a sócia dele. Eu depus sozinho. Minha esposa (Renilda Santiago)
depôs sozinha, meu sócio (Cristiano Mello de Paz) também. Eles tiveram essa
liberdade. Estranho, né? Em 1998, o Duda Mendonça recebeu por meio de contas
no exterior pela campanha publicitária de Eduardo Azeredo? Quem tem de
responder é o tesoureiro da época, senhor Claudio Mourão. O que ele fez ou
deixou de fazer com o dinheiro não tenho a menor idéia.
O senhor não sabe como foram feitos os pagamentos?
A única informação, de quem eu paguei, passei a listagem com os devidos
comprovantes. O que tinha do senhor Duda Mendonça também passei, que era a
carta assinada pela dona Zilmar. O contrato (da empresa de Duda com o
comando da campanha tucana em 1998) era de R$ 700 mil e o valor a pagar é de
R$ 4,5 milhões, o que prova que isso (caixa 2) já era comum naquela época.
Os pagamentos feitos ao Duda receberam dinheiro direto do exterior?
Fiz 22 cheques (para Duda) e aí termina minha participação. Isso está
declarado, dentro da minha contabilidade, que foi para o senhor Duda
Mendonça. E o resto está sendo desmoralizado pela imprensa.
Mas o senhor também omitiu muita coisa no início?
No primeiro depoimento (à CPI dos Correios) me senti muito tolhido para não
expor o PT. Porque eles tinham me pedido para não revelar os empréstimos
ainda.
Quem exatamente?
Toda a cúpula do partido, desde o senhor Delúbio (Soares, ex-tesoureiro), o
senhor Silvio (Pereira, ex-secretário-geral) e o senhor (ex-presidente José)
Genoino. A partir do ponto que eu pude revelar, houve uma tentativa de me
desacreditar. Não vou aceitar isso. No primeiro momento o PT do Rio Grande
do Sul negou (caixa 2). No segundo, já admitiram. Duda Mendonça negou, mas
depois admitiu que recebeu. O PT do Sergipe também recebeu. O PT do Rio não
admitia e depois o doutor Manoel Severino saiu da Casa da Moeda. Todos que
estão na lista estão se confirmando.
Os outros nomes vão se confirmar?
Não espero que todos se confirmem. Por exemplo, o Emerson Palmieri
(tesoureiro informal do PTB). Não espero que ele confirme. Até porque é um
homem que morre de medo do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). Eu creio que
vai chegar na CPI e seguir a mesma linha do Jefferson. Seria muita inocência
achar que ele vai confirmar o que falei. Seria idiotice. Mas o que falei é a
pura verdade.
Um jornal português informou que Delúbio Soares viajou dez vezes para
Portugal. O senhor o acompanhou numa dessas viagens?
Nunca viajei com o senhor Delúbio Soares e isso pode ser confirmado com meu
passaporte, que está lá na Procuradoria-Geral da República. Não vão
coincidir nunca as nossas viagens.
E com seu sócio, o advogado Rogério Tolentino?
Com certeza não. É só pegar o passaporte do Tolentino e ver que foram três
viagens a Portugal, comigo.
O senhor tem mágoa do PT?
Fico magoado e chateado porque ajudei o PT e depois só recebi os pés e as
costas. Em compensação, eles resolvem blindar certas pessoas. O governo,
como maior anunciante, resolve blindar pessoas que interessa a ele e
enforcar o Tiradentes, que seria o empresário.
O que está para ser esclarecido?
O que fico impressionado é que o dinheiro é da iniciativa privada. Tomei nos
bancos privados e passei para o PT, a quem mandou pagar. Ninguém está
querendo saber do acordo que o PT fez e eu paguei. Por que paguei? É isso
que acho que o senhor (secretário-geral do PT, Ricardo) Berzoini tem de
explicar. Que acordo foi esse com a iniciativa privada e para quem ele
passou? O dinheiro não é público, é privado. Os documentos que entreguei na
CPI provam e fecham com os valores.
Algumas pessoas já discutem a hipótese de impeachment do presidente Lula. O
que o senhor acha?
Vou ser muito franco, estou com tantos problemas, tanta merda na minhas
costas, que, se eu entrar com mais uma dessas, vão acabar de me pregar na
parede e com prego sem ponta. Me deixa fora dessa aí. É mais uma que vou ser
crucificado.
O senhor recebeu uma carta de ameaças?
Não. Há receios normais. Se tivesse vivendo o que estou, também estaria com
receios. Sou um homem normal, que se sente traído, abandonado, julgado,
usado, que tem medo.
Por último, sobre o seu depoimento na PF, em relação à venda de uma fazenda
ao Credireal, supostamente fraudulenta, em que são réus o senhor e o Clésio
Andrade…
Nem sócio dessa empresa eu era. Só depois que estourou o escândalo (do
mensalão) é que falaram “ah, já que esse caboclinho está enrolado, bota ele
aí”. Como se diz: eu sou uma Geni, né? A piada hoje é: se acontece uma coisa
ruim, bota o Marcos Valério nessa história. Só peço ao povo e às pessoas que
estão orando por mim, e eu tive com um pessoal evangélico, que continuem
orando por mim. Não parem, está me ajudando muito. A força deles é muito
grande, me sensibiliza e ajuda.

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