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Da esq. para a dir., Cedric, Haidu, Junior e Joji, os donos da Evolux - Fotos Carol Quintanilha

Da esq. para a dir., Cedric, Haidu, Junior
e Joji, os donos da Evolux – Fotos Carol Quintanilha

A primeira bicicleta. Quem é capaz de se esquecer dela? É como se fosse um troféu, só que um que anda. Ou melhor, empresta outro sentido para o verbo “andar”. Em 1985, Cedric Kessuane tinha 9 anos e ganhou a sua. Era uma Brandani aro 16, azul metálica, com banco banana e guidão duplo. Foi presente da mãe, com dinheiro do pai. Seria a perfeição para qualquer criança, mas não para ele. Garoto miúdo, Cedric não gostou daquele selim alto. Com um vizinho metalúrgico, conseguiu deixá-lo na altura ideal. Os pedais e as manoplas também não agradaram e foram trocados na primeira semana. Sua mãe ficou furiosa. Naquele momento, ela jamais poderia imaginar que nascia ali uma paixão e, anos mais tarde, uma inovadora empresa.

Cedric é um dos donos da Evolux, fabricante de bicicletas tão sofisticadas e únicas que podem ser comparadas a peças de alfaiataria. O Brasil deve vender cerca de 6,3 milhões de bicicletas neste ano, 1 milhão delas montadas sob encomenda em 7 mil bicicletarias e bike shops. As de Cedric são feitas de aço bruto, seguindo um processo quase artesanal, e saem com um visual vintage. Na linha de montagem, uma roda pode levar até duas horas para ficar pronta. “Queremos preservar esse conceito de feito à mão. Se não fizermos isso, vou perder minha essência”, explica Cedric, 37 anos, que mantém a empresa com três sócios. Cada Evolux leva peças de 18 fornecedores, a maioria deles brasileiros. Grandes montadoras, sobretudo aquelas instaladas na Zona Franca de Manaus, importam quase todas as peças da China e vendem a preços que aniquilam a concorrência das bicicletarias nacionais.

A Evolux trabalha com um nível de personalização tão elevado que fica fora dessa competição. O guidão, o garfo e o quadro são produzidos em sua fábrica, na zona leste de São Paulo. Os modelos não possuem marcha, a não ser que o cliente queira. As lanternas têm lâmpadas LEDs de design arrojado. A bicicleta é visualmente limpa, porque o freio funciona no contrapedal – para reduzir a velocidade ou parar basta pedalar no sentido contrário.

O publicitário Ernani Junior, 36, foi um cliente da Evolux antes de virar sócio de Cedric. No começo de 2012, ele precisava de produtos originais para uma ação promocional de uma marca de uísque. Encontrou as bicicletas Evolux na internet e encomendou uma. Nas semanas em que deixou a magrela em sua agência de comunicação, cansou de ouvir pedidos para comprá-la. “Imediatamente, vi uma oportunidade rara de negócio”, lembra Junior, que já foi executivo de contas nas agências Age, Almap/ BBDO, Lowe e Fischer.

A aposta de Junior está alinhada com o fato de que andar de bicicleta, hoje no Brasil, está virando coisa séria. São bancos como Itaú e Bradesco incentivando com empréstimos de bikes em cidades como São Paulo, Santos e Rio de Janeiro. Prefeituras estão ampliando as ciclovias e ciclofaixas. Organizações não-governamentais, que há anos martelam o discurso da mobilidade urbana, finalmente começam a ser ouvidas. “As pessoas nos anos 1980 e 1990 ‘se vestiam’ com um carro”, compara Junior. “Agora quem está em uma bicicleta é referência positiva, porque anda enquanto os motoristas estão parados no trânsito.”

Vestir uma Evolux, que custa em torno de R$ 900 a R$ 1.500, já é um privilégio de atores, designers, fotógrafos, tatuadores, surfistas e empresários. O chef Matheus Zanchini tem um modelo Old School, aro 20. O ator Sergio Guizé, o João Gibão da minissérie global Saramandaia, possui uma Vintage, aro 26, o mesmo modelo do artista plástico e grafiteiro Arlin Graff, uma promessa do mundo artístico. Graff ajudou a personalizar a bike com seu traço repleto de cores e formas que criam imagens dinâmicas. Ele elogia o conforto de sua magrela, usada no dia-a-dia, mas reconhece que o que faz a diferença é ter um modelo com o seu jeito. “Como posto meus grafites e obras no Instagram, um cara veio na rua e me cumprimentou me chamando pelo meu nome. Não nos conhecíamos, mas ele sabia quem era eu por causa da minha Evolux”, conta.

GOL140bAntes da chegada de Junior à sociedade, Cedric já montava bicicletas com Joíldo Clemente, o Joji, de 32 anos. Os dois decidiram criar a marca Evolux em 2008, depois de tanto se cruzarem em encontros de aficionados por bicicleta e carros antigos, os chamados Low Riders. Os dois nutriam a mesma paixão por montar e adaptar bicicletas, mas ganhavam a vida com outros empregos. Cedric trabalhava numa farmácia e Joji, em uma carpintaria.

A paixão de Cedric nasceu com a Brandani modificada, mas a vocação para personalizar bicicletas veio com uma Caloicross Extra Light, outro presente de sua mãe. Também conhecida como “A Super Máquina”, ela era o sonho de consumo de qualquer adolescente dos anos 1990. Naquele tempo, a moda era deixar os modelos com a cara de seus donos. Habilidoso, Cedric começou a ser procurado pelos amigos para serrar guidões, adaptar os freios e furar os quadros. Fez isso em várias, menos na sua, que mantém intacta até hoje.

Primogênita
Cedric agarrou-se à profissão de artesão de bicicletas, mas as vendas iniciais para os amigos eram poucas e a produção equivalia a gestar e parir um filho. “Catalina”, a primeira bicicleta que construiu do zero, nasceu em 2003, depois de nove meses de trabalho. A inspiração da primogênita surgiu quando Cedric assistia a videoclipes na MTV Brasil. Naquele ano de 1998, nada foi mais importante para ele do que dois segundos do clipe de Pobre Plebeu, em que uma Low Rider aparece em meios aos músicos da banda nacional Skamoondongos. “Ela estava envolvida por uma cultura e levava muito mais que uma estética às ruas. Era a personalidade do cara que a fez”, define.

A personalização é uma tendência mundial e que veio para ficar. Pode ser um boné, uma camiseta, uma joia, um carro e, por que não, uma bicicleta? “É uma forma de dialogar quase individualmente com o usuário, que sempre quer algo que o representa”, explica o coor denador do curso de pós-graduação em Design Estratégico do Istituto Europeo di Design, Fabiano Pereira.

Em busca do equilíbrio
“A Evolux identificou um segmento muito tradicional e de massa, procurando se diferenciar ao fazer a customização”, afirma o consultor do Sebrae-SP Fernando Fonseca. A empresa vende entre 20 e 30 unidades por mês, no limite da sua linha de montagem. Fonseca alerta que startups como a Evolux surgem como uma grande novidade e em geral começam com um rápido crescimento, mas não é raro que fracassem. “Se ficar só na produção artesanal, o custo de produzir uma bicicleta fica muito elevado e reduz o potencial de gerar capital”, diz.

O setor de bicicletas faturou R$ 2 bilhões em 2012, para uma produção de 7 milhões de unidades. Segundo o diretor-técnico da Associação Brasileira da Indústria de Bicicletas (Abradibi), Odilo Figueiredo, esse mercado poderia dobrar se a carga tributária no Brasil não fosse tão alta. Nos Estados Unidos, por exemplo, para estimular o uso, não são cobrados impostos na fabricação das bikes. Por aqui, eles chegam a 40% do valor final do produto. “Estamos na contramão da história. Na Espanha, hoje se vende mais bicicletas que carros”, diz.

A Evolux quer crescer de forma sustentável, sem atropelos. Há três meses, um investidor ofereceu injetar R$ 2 milhões na empresa, mas os atuais donos, Cedric, Joji, Junior e Alexandre Haidu, que cuida da parte industrial, recusaram a oferta. Uma grife de moda surf propôs comprar 50 bicicletas por mês, personalizando- as com o estilo de marca. Estão em negociação. Em todas essas ofertas, os empresários pensam no longo prazo, acreditando que a hora é de fortalecer a marca, e não produzir bicicletas em série. Até hoje, investiram R$ 100 mil no negócio, mas nenhum real foi gasto em propaganda, segundo Junior.

Quem quiser ver ou encomendar os produtos precisa recorrer ao Facebook ou ao Instagram, as duas plataformas de comunicação da marca. Só na primeira rede social eles possuem mais de 15 mil curtidores. Em janeiro, quando a fanpage entrou no ar, em menos de duas semanas todos os primeiros 20 modelos foram vendidos. A outra opção é visitar o show room da marca, na Vila Madalena.

Na Califórnia, nos Estados Unidos, onde bicicletas Comfort Bike ou Beach Bike, muito parecidas com as dessa empresa paulistana, são um sucesso, a venda é de 2 mil a 3 mil unidades por mês. A Evolux, como diz o nome, quer evoluir até esse patamar, mas sem deixar de iluminar o caminho até o sucesso.

* Publicado na Revista GOL
  1. Andrius Voigt Responder

    Bom dia!!
    Trtabalho com custização em motos, caps bikes, eu tinha contato de vcs a muito tempo atras, agora estou querendo montar uma bike pra mim, queria quadro e garfo low, o que teria de modelos?
    Abraço
    Andrius

  2. alex imbertti Responder

    Belo trabalho …
    Sou fã deste tipo de bicicleta estilo primeira e retro …
    Parabéns otimo trabalho ainda mais nas de garga sorveteira …

  3. Julio Pereira Responder

    Gostaria de uma bicicleta bacana com duas rodas atrás e uma na frente ou pode ser com duas rodas na frente e uma atrás. Pode ser derivada de um modelo já existente. Tenho várias fotos que posso mandar com exemplo.
    Vocês faz ou sabe quem faz? Sou de São Paulo – Capital.

    Grato.

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