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A economista e advogada Ana Novaes prestava muita atenção na nova peça publicitária que uma agência apresentava para uma empresa. Quando teve a palavra, ela protestou: “E onde está a diversidade multicultural? Não existem só mulheres brancas, bonitas e louras no Brasil”. Em outra ocasião e em outra companhia, a discussão era sobre a criação de um comitê de ética. De novo, não titubeou: “Suponham que uma funcionária seja assediada. Esse comitê não deveria ter pelo menos uma mulher?”. A propaganda não foi ao ar e a segunda companhia acatou o conselho de Ana para formar um grupo de ética mais diversificado. Impossível dizer se as duas histórias teriam outro destino caso não houvesse a presença dessa experiente executiva nos conselhos de administração (CAs). Mas havia e ela fez diferença.

No Brasil, como no resto do mundo, a diversidade de gênero dos CAs é um tema tabu. Pesquisa recente do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) indica que as mulheres ocupam 7,7% das posições na alta administração das companhias brasileiras abertas. Em 2011, 165 mulheres ocupavam 204 posições nos CAs de 147 empresas. No ano anterior, havia 162 mulheres (7,1%) em 216 posições de 151 organizações. Seis em cada dez empresas listadas na bolsa não incluíam nenhuma mulher em seu conselho. O país fica numa posição intermediária entre 25 nações, à frente de Itália, Portugal, Índia e Japão, e atrás de Noruega, Estados Unidos, França e China, segundo dados da Women on Boards 2011.

Um projeto de lei em discussão no Senado, de autoria da senadora Maria do Carmo Alves (DEMSE), pretende reverter esse quadro com a criação de um sistema de cotas para mulheres nos CAs. É um assunto controverso, que divide opiniões. A ideia é que as empresas atinjam o patamar de 40% de mulheres nos conselhos, o mesmo índice que a Noruega adota desde 2004. A lei brasileira, se aprovada, adotará um escalonamento até chegar à cota máxima em 2022. A participação das mulheres deve atingir 10% em 2016, 20% em 2018 e 30% em 2020. “Ter percentual mínimo em lei é uma forma de garantir também maior rapidez na redução de desigualdades há muito tempo consolidadas”, diz a senadora. “Medidas que promovam mudanças podem gerar inicialmente alguma resistência, mas depois passam a ser absorvidas com naturalidade.”

É óbvio que Ana Novaes não faz parte de três CAs por ser uma feminista. Ela ocupa o assento por ser uma profissional com uma carreira que causa inveja a qualquer marmanjo de barba. Já foi diretora de investimentos da Pictet Modal Asset Management, analista de investimentos do setor de telecomunicações pelo Banco Garantia, economista do Banco Mundial e hoje é sócia da Oitis Consultoria. O primeiro convite para se tornar conselheira de uma empresa foi feito pela CCR. Quando chegou para a sua primeira reunião, ela era a única mulher, mas se sentiu em casa Ana cresceu rodeada por três irmãos homens. Era o ano de 2002 e os temas em pauta nada tinham a ver com questões de machismo ou feminismo. O dólar estava disparando e Ana, especialista no assunto, tinha opiniões sólidas a dar sobre hedge cambial. “A discussão sobre cotas para mulheres nos conselhos deveria ser precedida por outra questão: por que estamos em menor número que os homens nos cargos executivos das organizações?” Ela também faz parte dos CAs da CPFL e da Metalfrio, além de ter uma passagem pelo conselho da Datasul.

O CA é a instância encarregada de elaborar estratégias para a empresa. Enquanto a diretoria executiva pensa no dia a dia do negócio, o conselho pensa no amanhã. É um trabalho bem remunerado: um conselheiro ganha em torno de 120 000 reais por ano, segundo o IBGC. Numa companhia com um conselho independente, isto é, delegada a profissionais qualificados e sem vínculo direto com os executivos da organização, os assentos são preenchidos por conselheiros com sólida formação acadêmica, visão geral de administração, conhecimento de finanças, contabilidade e mercado, experiência em estratégia de negócios e capacidade de identificar e controlar riscos. É esse grupo fechado que elege e pode demitir presidentes e diretores executivos.

Essa última característica dos CAs remete à seguinte indagação: se os atuais conselhos são formados predominantemente por homens, qual a chance de uma mulher ocupar o cargo máximo de uma empresa? A professora do Insper Regina Madalozzo fez um estudo empírico e chegou à conclusão de que as atuais composições dos CAs reduzem em 12% a chance de uma mulher virar presidente de uma companhia aberta. “É parte da lógica de que julgo melhor o que é parecido comigo. Por se tratar de um ambiente masculino, isso dificulta a subida de uma mulher”, explica. Regina afirma que existe um teto de vidro, uma barreira invisível que impede a progressão das profissionais do sexo feminino. A pesquisadora não defende as cotas, mas admite que podem, durante certo período, obrigar os conselheiros a ver o diferente, e isso acelerará o tempo em que elas vão conquistar o poder nas organizações.

Marise Barroso, que acaba de se tornar presidente da operação brasileira da Masisa, do ramo de construção civil, preocupase com a questão do pipeline de mulheres. Ela entende que ainda não há mulheres qualificadas em número suficiente para suprir a demanda no caso da instituição de cotas para o setor. Exdiretora de marketing, ela nunca ocupou um CA, tampouco dirigiu sua carreira para se tornar uma CEO. Mas em 2009 ela virou presidente da Amanco, também da área de construção civil, e deixou um legado invejável. Preocupada com a questão da diversidade de gênero e igualdade de direitos, Marise deixou a diretoria executiva com metade dos cargos ocupada por mulheres, 35% dos de gerência e 21% do conjunto total de funcionários, o que incluía as funções de mecânico, eletricista e operador de máquinas. Promoções, seleção e aumento de salário deveriam atender à regra da isonomia. Os headhunters foram orientados a oferecer sempre dois homens e duas mulheres com boas qualificações para cada cargo-chave.

Acredita-se que, com mais executivas na alta administração, distorções como salários diferentes para homens e mulheres em funções idênticas diminuam gradativamente. O Congresso discute uma proposta de Lei Complementar que impõe multa a empresas que pagarem salário maior ao homem, mas o setor empresarial já faz duras críticas à adoção da medida no Brasil que ainda depende da sanção da presidente Dilma Rousseff. Hoje, 84% das companhias brasileiras não monitoram diferenças salariais em função de gênero, segundo estudo apresentado no World Economic Forum 2010.

“A sustentabilidade de uma empresa passa pelo equilíbrio. O homem é mais pragmático e treinado para executar tarefas, enquanto a mulher vê o médio e longo prazo e procura as raízes do problema”, diz Marise. Ela atribui também a essa incansável busca pela diversidade o aumento de 13% para 33% do market share da Amanco durante sua gestão.

Para a superintendente do IBGE, Heloísa Bedicks, também conselheira da Mapfre Seguros, o modo de pensar e agir de homens e mulheres é reconhecidamente diferente, e que há sinergia quando se forma um CA mais diversificado. Mas a cota cria uma situação indesejável, que é pôr em dúvida a qualidade da profissional. “Sou mulher, defendo a causa, mas fala mais alto o brio da competência”, afirma.

Deborah Wright é membro da Women Corporate Directores e ocupa há quatro anos o CA da Renner em substituição à consultora de moda Gloria Kalil. Mas ela não foi convidada para o cargo por seus conhecimentos nessa área. Com uma sólida carreira, incluindo a presidência de algumas empresas e a vicepresidência corporativa da Editora Abril, a administradora acredita que o estilo feminino de gestão é uma questão nova e só há pouco começou a ser valorizada. Ela lembra que as mulheres que estão hoje nos CAs começaram a atuar nos anos 1970, quando o modelo de business e de gestão era outro. “Minha geração também tinha de apresentar as competências masculinas, como ambição, objetividade e assertividade, e demonstrar que também desempenharia bem nesse gráfico”, afirma. Em dezembro, Flavia Buarque de Almeida foi convidada para fazer parte do conselho da Renner, que entra para o clube seleto de organizações que têm mais de uma mulher na função.

A líder da Hays Executive no Brasil, Cynthia Rejowski, afirma que tem aumentado o número de companhias que procuram indicações de profissionais do sexo feminino para cargos da alta administração. E esses pedidos têm chegado à empresa de recrutamento de executivos para segmentos em que há um grande predomínio de homens no comando. Segundo Cynthia, ainda vai levar uma geração para que a situação comece a ficar mais equânime na composição dos CAs.

O jeitinho delas
Um estudo da Ceram Business School, na França, descobriu que empresas que tinham mais mulheres na alta administração apresentaram maior resistência à crise financeira de 2008 na Europa. O BNP Paribas, que tem 39% de executivas em cargos diretivos, viu suas ações caírem 20% naquele ano. Já o Credit Agricole, que possui só 16% de executivas, despencou 62,2%. As cotas para as francesas foram adotadas em 2007 e devem chegar a 40% até 2016. Na Alemanha, a chanceler Angela Merkel já chamou de escandaloso o predomínio de homens nos conselhos de administração e deu um ultimato para que as companhias reduzam essa discrepância antes de adotar cotas.

A Espanha também aprovou uma lei de cotas em 2007, mas o período de adaptação das organizações vai até 2015, mesmo prazo estabelecido na Holanda. Bélgica e Itália também já definiram cota de 33% desde 2011. Países como Austrália, Islândia e Finlândia exigem que as companhias listadas em bolsa divulguem suas políticas de promoção da diversidade. Nos Estados Unidos, que não possuem uma política afirmativa de gênero, as mulheres ocupam 15,7% dos assentos em conselhos de administração das 500 maiores empresas, segundo o ranking da revista Fortune.

Uma pesquisa da Women Corporate Directors e Heidrick & Struggles, com supervisão de Boris Groysberg, professor associado da Harvard Business School, detectou que uma clara maioria de executivas acredita que um conselho de alta administração diversificado teria um impacto positivo no restabelecimento da confiança dos investidores nas organizações. As mulheres defendem maiores e mais agressivas regulamentações do mercado financeiro, incluindo a alta remuneração dos executivos, e tendem a agir com mais ética. É impossível de prever, mas uma presença mais significativa de mulheres nos conselhos de administração teria evitado as quebradeiras dos bancos em 2008 nos Estados Unidos?

* publicado na revista Você S.A. Especial, p. 28-31

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