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Mumbai

Publicada em 3 de agosto de 2008
Revista Megacidades – Estadão

Eduardo Nunomura, enviado especial
MUMBAI

Em labirínticos corredores, tão estreitos e verticais que a luz do sol bate no chão apenas por minutos, moradias precárias escondem fabriquetas conectadas à economia mundial. Delas saem potes de barro, latões de alumínio, carteiras, sapatos, calças, bonés, roupas, tecidos ultracoloridos para exportação, celulares e toda sorte de eletroeletrônicos recauchutados. Um cemitério de quinquilharias que ressuscita em novos produtos. É como estar num lixão, no meio da sujeira e de odores que trazem à memória temidas doenças. O esgoto jorra na frente das casas e dos barracos. Pilhas de sacos plásticos e sucata descartada pela área mais nobre de Mumbai encontram abrigo e serventia nos quartos, salas e onde mais houver espaço. Em Dharavi, com seu estimado 1 milhão de moradores, esse ambiente inóspito significa trabalho, dignidade e, sobretudo, dinheiro. Suas 15 mil casas-fábrica geram 55,4 bilhões de rupias (R$ 2 bilhões) por ano.
O século 21 é uma fotografia desfocada na maior cidade da Índia (19 milhões de habitantes), só nítido em poucos nichos comerciais ou turísticos. Esses lugares são a antítese de Dharavi, o constrangedor vizinho que ninguém quer ter. Nem ali nem em qualquer parte. A exceção é formada pelos que vivem e ganham o pão de cada dia na megafavela. E são gratos a Dharavi. Acreditam que, por causa dela, seus filhos um dia terão um futuro melhor. Vijay Tank, de 24 anos, faz potes com o barro trazido de terrenos próximos ao Mar da Arábia. É um trabalho rotineiro, cansativo e maçante. Ele e a mulher, Bhauna, mais pais, irmãos, cunhados e agregados que somam 14 adultos no total, moldam com as mãos as peças desde as primeiras horas do dia até o entardecer. Tank aprendeu com o pai, que aprendeu com o avô, mas ele tem feito de tudo para interromper essa herança. “Meus dois filhos estão na escola, quero que sejam alguém melhor do que eu”, sonha.
Centenas de potes vão sendo produzidos e levados ao sol para secar. Apesar das limitadas frestas ensolaradas no quintal, famílias dividem o espaço sem brigas. À noite, quando dezenas de fornos ainda emitem fumaça, os vasos são recolhidos e empilhados num canto da sala. Quando as 22 pessoas da família se acotovelam nos 20 metros quadrados da casa, o tímido Tank diz pensar em como ganhar mais dinheiro. O que no seu caso e de outras 1.200 famílias fabricantes de potes, chamados de kumbhaars, é uma luta desigual. “Os compradores vêm pagando menos, precisamos fabricar mais”, diz ele, que recebe 300 rupias, ou R$ 11, por dia.
Em Mumbai, a história de Tank se repete. Indianos vivem de inventar formas de aumentar a renda. Trabalham por conta própria, vagueiam pelas ruas à procura de trocados, recolhem o que vêem pela frente, estendem a mão pelas esmolas de turistas. Espalham-se por toda a cidade. E isso explica as incontáveis habitações precárias. Estão presentes até mesmo em bairros chiques ou de classe média alta como Malabar Hill, Juhu, Nariman Point, Powai e Colaba. Já a precariedade de Dharavi é explícita nas choças erguidas com tapumes de madeira, cobertas por telhas de amianto ou zinco e inacabadas com chão de barro.
Antiga colônia batizada pelos portugueses de Bombaim (baía boa), a cidade portuária indiana ganhou novo nome por imposição de governantes. Virou Mumbai, em homenagem à deusa protetora da cidade. Do porto, ela foi se expandindo já com a colonização britânica. Os melhores empregos permaneciam no sul, enquanto a multidão de migrantes que chegavam em busca de trabalho foi se empilhando na parte norte. Bairros foram surgindo cada vez mais distantes do Gateway da Índia, hoje um pórtico e a primeira visão de quem chega de barco à cidade. Pescadores conhecidos como koli fundaram Dharavi. Só que, com a expansão urbana, a megafavela ficou no que hoje pode ser visto no mapa como o meio de Mumbai, o centro de tudo, eqüidistante do passado e do futuro. Bem ao lado dos aeroportos, onde é cortada pelas duas únicas linhas férreas da megacidade. Essa localização estratégica aguça o apetite do mercado imobiliário.
Em junho de 2007, o governo de Maharashtra, da qual Mumbai é a capital, anunciou um plano de intervenção em Dharavi. Chamou-o de reabilitação, o que na prática representará a remoção da favela de 2,5 quilômetros quadrados tal como ela é hoje. Em vez de barracos, prédios de cinco andares e ruas no lugar de becos tortuosos. O projeto foi entregue ao arquiteto Mukesh Mehta, um refinado indiano herdeiro do dono de uma siderúrgica. Educado nos Estados Unidos, ele administrou a empresa do pai e depois ficou ainda mais rico construindo mansões em Long Island, Nova York. Poderia ter feito o mesmo quando voltou à Índia, país em franca expansão econômica. Muitos empreendedores estão ansiosos em participar dos investimentos superiores a R$ 64 bilhões que o governo fará até 2013 – o sonho é crescer tão rápido quanto Xangai.
O arquiteto prevê a retirada de milhares de moradores para construir grandes blocos de edifícios com lojas nos térreos e moradia nos superiores. “Faço parte do mainstream, porque meu pai me educou e tive o privilégio de crescer de forma saudável. O meu projeto de reabilitação é dar aos favelados condições de fazerem parte do mainstream.” E o que viria a ser esse mainstream? Casas boas, saneamento, saúde e renda num ambiente equilibrado. Mehta diz ter conversado com entidades médicas, educacionais e trabalhistas que garantiram investimentos nesta nova Dharavi.
Mas o líder dos favelados Jockin Araputham ficou furioso. “Mostre-me uma proposta do Fundo Monetário Internacional ou do Banco Mundial em nome dos ricos. Não há. O dinheiro é dado para eles dizerem que vão gastar com reurbanização de favelas e construção de banheiros”, protesta. “E daí vem a corrupção, gente ganhando prestígio à custa da miséria dos outros.”
Araputham é presidente da Federação Nacional de Moradores de Favelas. Ele passa o dia num escritório cedido pelo órgão de planejamento da cidade atendendo indianos que pedem ajuda financeira e doação de materiais. De cada dez moradores de Mumbai, seis são favelados. “Aqui você pode vender merda e sobreviver, estalar os dedos e ganhar dinheiro”, resume. O que faz da megafavela algo único é sua dinâmica econômica. “Todos tentam mudar Dharavi, mas não com os olhos de quem vive nela, sem se preocupar que temos sobrevivido como em nenhuma outra parte do mundo.”
Como resultado da luta das ONGs, há luz. A água, só em algumas horas. A falta de banheiros parece problema sem solução, embora tenha sido atenuado. A média é de um para cada 100 moradores – nos anos 1980, a proporção era de um para 800. Crianças, mulheres e idosos defecam no meio das ruas. Banheiros, afinal, ocupam um espaço precioso. A cidade precisa de cada metro quadrado, e entre os mais cobiçados estão os do Bandra Kurla Complex, um sofisticado centro empresarial e financeiro que vem sendo erguido nos últimos dez anos. No passado, foi um grande arrozal, depois virou favela e, no fim dos anos 1970, o lugar foi incorporado com o propósito de estimular a ocupação do sudoeste de Mumbai. Manguezais foram destruídos e milhares de moradores, expulsos. A modernidade tem seu preço e um deles é se livrar de vizinhos feiosos e fedorentos como a Dharavi logo ali ao lado.
Grandes escritórios têm pressa para se mudar para o Bandra Kurla Complex, que já abriga a Bolsa de Valores da Índia, embaixadas e sedes de bancos. Prédios envidraçados, refletindo-se uns aos outros, se espalham por quarteirões de um bairro ainda em construção. Não há restaurantes, bares ou vida social além do trabalho. Engravatados parecem não se importar com o vaivém de caminhões e tratores ou o pó das obras. O transporte é à base do carro ou do riquixá, muito útil para deslocamentos curtos, arriscado demais para a selvageria do trânsito nas grandes avenidas.
Essa ininterrupta disputa por espaço se reflete no crônico problema dos transportes, cujas soluções custam a chegar. Só em fevereiro deste ano, pleno século 21, a autoridade local começou a construir um metrô no sentido leste-oeste. O que há hoje são ruas de duas faixas interligando regiões densamente povoadas. Estão tomadas por carros, táxis Fiat anos 60, atrevidos riquixás e caquéticos ônibus coloridos.
O metrô ficará pronto em um ano e meio, na primeira parceria público-privada da Índia. Serão 7 quilômetros com 12 estações e capacidade para 600 mil pessoas por dia. Se o problema é grave no sentido leste-oeste, dá para imaginar a balbúrdia do deslocamento norte-sul. Ele define a cidade. Milhões acordam cedo para “descer” para o trabalho. De noite, o sentido se inverte. A maioria recorre aos trens do século 19. “É o meu pesadelo diário, quatro horas em vagões lotados com jovens se pendurando em cima deles, e não há alternativa”, reclama Jennifer Reynolds Dsouza, de 38 anos, a gerente do banco alemão Commerzbank, que mora ao norte de Mumbai, distante 25 quilômetros do trabalho. Se fizesse as contas, Jennifer veria que nas duas décadas da rotina casa-trabalho já perdeu dois anos de vida, muitas vezes em composições lotadas. Apesar do aperto, os trens herdados da colonização britânica são pontuais e mais eficientes que os carros parados nos congestionamentos. Isso faz com que sucessivos governantes de Maharashtra adiem soluções e abusem das promessas. Uma delas é sugerir a troca do automóvel pelo aerotrem, o veículo leve sobre trilhos. Se um dia chegarem a ser construídas, serão composições suspensas em viadutos, com ar-condicionado, poltronas confortáveis e janelões para admirar o trânsito infernal. Numa tentativa de descentralizar a lógica urbana, as autoridades construíram a cidade-satélite de Navi Mumbai. Tornou-se especializada em alta tecnologia, que emprega pouco e obrigou milhares de operários de sua construção a retornar à superpovoada Mumbai.
Em 2025, Mumbai vai ser a segunda cidade mais populosa do mundo, com quase 26,3 milhões de pessoas. Só que a primeira já é e continuará a ser a bem-resolvida Tóquio. Outras cidades indianas, como Nova Délhi e Calcutá, vão enfrentar explosões populacionais, mas nenhuma tão asfixiante quanto a de Mumbai. Se em 1975, com seus 7,8 milhões de habitantes, ocupava o 15º lugar no ranking mundial, no ano passado ela saltou para o 4º posto. O que gera uma disputa por habitações a preços cada vez mais inacessíveis.
Morar em certas partes de Mumbai chega a ser mais caro que em Nova York ou Londres, seja para comprar um apartamento acima de R$ 4,6 milhões ou pagar aluguel de R$ 7,8 mil por um três-dormitórios. Nas favelas, os que não herdaram as casas de seus pais pagam aluguéis irrisórios, coisa de R$ 10 por mês. Mas encontrar essa pechincha é uma loteria. Quando alguém sai de lá, há fila de candidatos a próximo morador. A solução para tanta procura tem sido simplesmente erguer mais barracos nas calçadas. Centenas deles. Na maior parte do ano, o sol escaldante aquece o concreto e à noite um papelão serve de colchão. Nos meses das monções chove a cântaros, acentuando a precária estrutura da cidade.
No bairro de Mazagoan, na orla portuária, os barracos de madeira ocupam cada milímetro da calçada da Reay Road. Num exercício de cidadania, os Naidus, imigrantes de Uttar Pradesh, pintaram o número 15 na frente da precária moradia – no caso de algum familiar procurá-los. A jovem Kastoore, de 18 anos, sabe que sua vida está limitada geograficamente. Nunca sai de casa, porque precisa cuidar dos quatro irmãos menores. Um deles, uma menina, tem problemas mentais e fica o dia inteiro no chão. Seu irmão Bharat, de 12, perdeu parte da perna direita ao ser abalroado a menos de 2 metros da cama. “Ele foi atropelado por um ônibus e já voltou do hospital com a perna de plástico”, lembra. A cada dia, a Reay Road se transforma numa quilométrica galeria de casebres, cujos habitantes fazem do asfalto a extensão de suas vidas. Eles cozinham, se banham, dormem, conversam e brincam em duas faixas das quatro pistas destinadas aos automóveis. Os acidentes são inevitáveis.
O conformismo com o estado das coisas, sejam elas boas ou terrivelmente más, é, em parte, explicado pelo hinduísmo. As pessoas nascem, casam e morrem dentro do sistema de castas: os brâmanes (religiosos e nobres), xátrias (guerreiros), vaixias (camponeses e comerciantes) e sudras (escravos). Fora delas, estão os párias, ou intocáveis. Não há mobilidade social entre as castas e ninguém se engalfinha por mais status. Um intocável acredita que desentupir esgoto é seu destino divino.
No meio dessa arrumação social, comunidades vivem como baratas tontas sem saber que os de cima tramam contra seus destinos. O alucinante lavatório de roupas Dhobi Ghat, na estação de trem Mahalaxmi, é um exemplo. São 10 mil homens esfregando e torcendo roupas em cubículos de concreto. Essas máquinas humanas prestam serviço a hotéis, escolas, condomínios e exportadores de roupas. Os ingleses criaram os tanques 150 anos atrás e nenhuma máquina de lavar roupas até hoje inventada foi capaz de oferecer um serviço mais barato. Sushyl Kanudia, por exemplo, aprendeu o ofício com o pai. Tem 25 anos, e desde os 15 já trabalhava em vez de estudar. Como só sabe fazer isso, teme que os dois filhos e a família percam a renda mensal, algo em torno de R$ 414. A prefeitura ameaça acabar com os lavatórios de roupas, começando por Dhobi Ghat. “Sempre que falam em reconstruir a cidade, os poderosos chegam com os tratores. Temos de resistir como os colegas de Dharavi estão fazendo”, diz ele.
Assim a discussão retorna a Dharavi. O destino de milhões de indianos passa pelo futuro da megafavela. Há uma equação a ser resolvida que envolve melhorar a vida de uma maioria que se especializou em sobreviver. Dharavi é uma encruzilhada, o ponto de parada de Mumbai antes de prosseguir rumo à inevitável modernidade.

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